As histórias são indispensáveis. Digo mesmo: insubstituíveis. Mudam ambientes, pessoas, estados de espírito e lembram-nos que houve vida antes de nós. Agora mesmo, quando recordo os meus velhinhos adotivos, o grupo que me recebeu, durante dois anos e meio, à quinta-feira, num lar perto da minha casa, lembro-me das histórias que levava comigo. Levei António Aleixo, Natália Correia, Fernando Pessoa, Miguel Torga, Mário Quintana, António Gedeão, Joaquim Pessoa, Florbela Espanca, Eugénio de Andrade, David Mourão Ferreira, António Manuel Pina, Filipa Leal, André Tecedeiro e tantos outros. Um carregamento de palavras melodiosas, que alimentavam o corpo e a alma e que eles gostavam de ouvir. Para muitos, uma descoberta, para outros, um reencontro feliz. Estabelecemos uma relação especial. Esperavam por mim e pelo apêndice, a coluna de música, com um entusiasmo que não me recordo de sentir quando entrava numa sala de aula. O repertório musical foi uma das minhas aprendizagens neste projeto, que criei em regime de voluntariado. Foram os meus velhinhos adotivos que me ensinaram um repertório de música portuguesa e estrangeira que não fazia parte das minhas preferências nem do meu conhecimento. Encerrávamos as sessões ora com solenidade, ora com palmas e a cantar. Ouvimos Amália, Linda de Suza, Rodrigo, Paulo Alexandre, Carlos Paião, Xutos&Pontapés, Zeca Afonso, Paulo de Carvalho, Ana Moura, Carolina Deslandes, Simone de Oliveira, José Cid, António Calvário, Édith Piaf, Charles Aznavour, e um sem número de vozes escolhidas por eles e por mim.

As quintas-feiras começaram tímidas, vestidas de novidade e calor humano. Era janeiro. Aos poucos, fomos despindo a cerimónia. As vozes ouviam-se e interrompiam-se, nascia um grupo fervoroso, participativo. Os temas diversificavam-se e davam que falar entre eles até eu voltar, na semana seguinte. Falámos sobre tanto assunto. Revisitámos profissões que desapareceram e refletimos sobre as que surgiram. Lembro-me de uma quinta-feira em que o tema eram as novas palavras, novos termos, a maioria associado ao digital. Um grupo curioso, ávido de mundo, apesar de o mundo estar reduzido ao espaço físico daquele lar de idosos.

As quintas-feiras foram mais do que um projeto. Foram um ponto de encontro feito de poesia, de música, das histórias, das palavras, da atenção sem aditivos. Disponibilidade. Escutar, olhar, reparar, acarinhar.

Houve dificuldades, com certeza. Alguns dos meus velhinhos adotivos, um termo carinhoso que insisto em repetir, adoeceram e foram perdendo faculdades. Houve partidas durante o período das férias. Interpretei estas ausências como uma última vontade. Ninguém gostava de despedidas.

O projeto terminou. A disponibilidade é uma condição sine qua non, utilizo a expressão latina para atenuar a dificuldade. Os meus velhinhos adotivos não sabem que recebi muito mais do que aquilo que lhes proporcionei. Lamento tanto que o que experienciámos não seja replicado noutros lares, para que a vida mantenha a graça das fontes quando anoitece, como escreveu Torga.

A graça, alguma graça.

Dedico este texto a todos os que fizeram parte das Melhores Quintas-Feiras, em especial aos que já partiram: Joaquim, Olga, Carvalho, Isabel, Maria dos Anjos, Béu.

 

NB

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