
Escrevo na cozinha, este inesperado atelier onde o calor tropical faz o suor correr na dobra dos joelhos e as plantas crescem com uma alegria quase insultuosa em cima do frigorífico. Valha-me a selva doméstica: falta-lhe a brisa, mas sobra-lhe o oxigénio que alimenta a minha escrita. É o meu último território livre. O resto da casa foi confiscado pelo teletrabalho e transformado num condomínio de empresas sitiadas: temos sucursais na sala e multinacionais instaladas nas secretárias dos quartos. O capitalismo ignorou olimpicamente o meu direito à habitação, por isso exilei-me entre as panelas.
Vale-me a luz destas janelas imensas. Lá fora, o arvoredo muda de roupa com a vaidade de uma passarela de Milão. Cá dentro, fujo da insanidade digital focando-me no que realmente importa: contar as massas que restam no frasco ou as avelãs que sobram na granola. Uma piada, claro. Prefiro contemplar com orgulho revolucionário as saquetas de chá que trouxe de viagens antigas, de quando viajar não era apenas mudar o portátil de uma divisão para a outra.
A decoração da cozinha rendeu-se à polivalência forçada. A estante sofre agora de uma crise de dupla personalidade: divide-se entre frascos de aveia, Nestum, bolachas, literatura e dossiers. Tudo em papel físico, se faz favor, que de virtualidades já me basta. Há ainda uma tela abstrata com cores de abóbora e sementes de chia que uma amiga me ofereceu, e uma ardósia onde escrevi o meu mantra: “Escreve um texto por dia, não sabes o bem que te fazia!”. Dizem que os mais fortes são os que se adaptam. Eu adapto-me, sim, mas sob feroz e diário protesto. Nos dias de pior humor, consolo-me com a história: Luís Sepúlveda e Agatha Christie também escreveram na cozinha. Se serviu para eles, serve também para mim.
Ao meu lado, o Bowie e a sua girafa de borracha desafiam-me para o jogo, felizmente imunes às métricas de produtividade corporativa que assolam a sala e os quartos. Se eu fosse Clarice Lispector, encontraria uma epifania metafísica no zumbido do motor do frigorífico. Como sou apenas eu, limito-me a usar os livros como escudo contra o relógio das empresas. Da janela, as estações correm ao seu ritmo natural, alheias à urgência dos e-mails que caem num dos quartos ao lado. No meio deste ecossistema empresarial, a escrita continua a ser uma forma de estar.
E por aí? As vossas cozinhas também ganharam superpoderes ou ainda só servem para fazer o jantar? Contem-me tudo nos comentários!
NB

