
Chama-se Paz. É moçambicana, natural de Cabo Delgado, e carrega nos seus 38 anos a ilusão de uma idade muito mais avançada. fala como quem canta. Há na sua voz uma musicalidade que flutua no ar, desenhada por vogais abertas e por um sorriso luminoso que desafia o rosto marcado por cicatrizes. Nos olhos negros, profundos e acessos mora uma força que recusa render-se. Encontrei-a no autocarro 750. Regressava do trabalho de limpeza em edifícios empresariais. Sentámo-nos lado a lado. Já nos tínhamos cruzado naquele percurso, mas aquela foi a primeira vez que rompemos o silêncio. Ao ouvir o seu nome, elogiei a promessa de felicidade que ele carregava. Paz explicou-me que o recebera da mãe como um manifesto, um clamor: o reflexo do maior desejo de uma mulher habituada a enterrar os seus e a cuidar dos mutilados, dos feridos pela guerra e pelas milícias islâmicas. O nome Paz nasceu do luto e da sobrevivência. A viagem naquele autocarro tinha uma atmosfera quase surreal. Estranhamente, às sete da manhã daquele dia, éramos as únicas passageiras. Paz acolhia a minha atenção e empatia com uma gratidão desarmante. Confesso que, a espaços, me alheei do que dizia, os meus olhos perdiam-se a observar-lhe o rosto e as mãos ásperas, enquanto a palavra “Paz” ecoava na minha mente. Seria coincidência? Não costumo valorizar estes pensamentos, nem procuro sinais no invisível. O rumo da conversa inverteu-se quando ela me perguntou se eu estudava e o que fazia com o caderno e o livro que segurava nas mãos. Contei-lhe que escrevia um texto para um concurso literário cujo tema era, por ironia ou coincidência, a Paz. O sorriso da mulher expandiu-se instantaneamente pelos olhos, pela boca, pelas mãos. Aproveitei o momento e perguntei-lhe o que significava a paz para ela.
— É a ausência de guerra — respondeu, com serenidade.
— E sente isso aqui em Portugal?
— De certa forma, sim.
Decidi aprofundar:
—Mas haverá algum lugar onde a paz seja mais do que um estado de espírito, ou a simples ausência de conflito? A emoção humedeceu lhe o olhar, e com uma sabedoria ancestral, segredou-me:
— A paz mora no útero materno. É lá que experimentamos o que mais tarde aprendemos a chamar de paz. O resto da vida é apenas uma tentativa de reconhecer essa energia e de lutar para a reviver. Com a mesma rapidez com que me entregou este mistério, despediu-se com um aceno. Tinha chegado à sua paragem e desapareceu na Avenida Gomes Pereira em Benfica. O resto do trajeto foi preenchido por um silêncio reflexivo sobre as reminiscências do que fomos antes de nascer. Aquela mulher, chamada Paz, que trazia a guerra na memória e a limpeza nas mãos, nunca saberá como o nosso breve encontro alterou o rumo do texto que eu escrevia. A paz não é uma construção do pensamento, habita-se na origem da vida. O mapa da nossa falência humana desenha-se no exato momento em que nascemos. Desde então, as perguntas acumulam-se. Será que a paz existe em todos os úteros maternos? Haverá em muitos uma experiência oposta? São muitas as dúvidas É, então que recordo a frase de Madre Teresa de Calcutá: “A paz começa com um sorriso”. Foi esse o primeiro e mais valioso presente que a mulher moçambicana, chamada Paz, me ofereceu.
NB

THE LAST WALL, A ÚLTIMA PAREDE, MARCO DE ANGELIS.