Trago a cabeça a ferver, povoada por uma multidão que não respeita fronteiras. De um lado, Galegos e as sombras de Marvão, do outro, Valência de Alcântara e as hortas castelhanas. A culpa deste engarrafamento de fantasmas é do futebol. Hoje há Portugal-Espanha nos oitavos de final do Mundial e, na minha memória, a fronteira geográfica transformou-se num campo de futebol onde o coração joga sempre em fora de jogo.
Em Santo António das Areias, o carismático taberneiro, João Grande, já reclama a vantagem de jogar em casa. Move-se na taberna com a agilidade de um guarda redes veterano, alinhando a tática infalível na bancada da cozinha: bifanas com a quantidade exata de piripiri para travar o avanço espanhol, pica-pau de contra-ataque e travessas de caracóis que avançam lentamente, mas com eficácia. Ao seu lado, a sua fiel treinadora adjunta, a menina Emília Ribeiro, orquestra os tachos com a solenidade de quem prepara uma final da Champions. Enquanto isso, o Sérgio, sobrinho e braço direito, assume a logística pesada. Suado, de mangas arregaçadas, faz o aquecimento garantindo que os barris de cerveja estão sob pressão e as bebidas prontas a entrar em campo, pontualmente, às 20h00.
A invasão espanhola, contudo, começa muito antes do apito inicial e não traz chuteiras, mas sim sacos de compras. Vejo o Kike e a Paca cruzarem a linha de demarcação territorial com o único propósito de saquear o comércio lusitano. Levam pão alentejano, queijo, chouriço e azeitonas.
– Es que en Portugal todo sabe mejor!- justificam, rendidos à gastronomia inimiga.
O contrabando pacífico faz-se na loja da menina Glória, a minha mãe, que domina a diplomacia da raia como ninguém. Mal entram, começa o verdadeiro espetáculo: um passe de bola linguístico onde o português e o castelhano se driblam mutuamente. É uma finta verbal aqui, uma expressão inventada ali, e o comércio faz-se nesta dança onde a semântica nunca é falta para cartão amarelo.
Lá fora, a Maribel e o António tentam estabelecer uma bolsa de apostas para o duelo ibérico. Ingenuidade pura. À porta de uma casa alentejana, tentar chegar a um acordo sobre futebol é tão impossível como pedir a um espanhol que fale baixo. A unanimidade ali é um mito urbano.
Para resolver o impasse táctico, surge a minha Tita Maria. Se há pessoa que encarna o Tratado de Tordesilhas é ela: portuguesa de nascimento, espanhola por casamento e absolutamente analfabeta em matéria de futebol. Para a Tita Maria, a bola podia ser quadrada. Porém, há um nome que lhe acende o patriotismo: Ronaldo.
– Ganha Portugal com golos do Ronaldo, ¡y punto!- decreta, com a autoridade de quem não sabe o que é um pênalti, mas sabe reconhecer um bom rapaz.
No extremo oposto da bancada mental, a D. Mari, avó da minha sobrinha, vive o drama da dupla nacionalidade. Nascida em Valência de Alcântara mas portuguesa por matrimónio em Portugal, exibe um portunhol tão exemplar que devia ser estudado em Coimbra e em Salamanca. O seu coração divide-se milimetricamente ao meio, numa finta emocional que deixa qualquer adepto confuso.
Esta seleção de gente boa, que hoje me entra pela cabeça adentro sem pedir licença, já não habita o mundo dos vivos. Pertencem todos ao campeonato da eternidade. Eu própria já não habito a raia. Mas a poucas horas do jogo que vai paralisar a Península Ibérica, esta narrativa é o meu tributo à alegria pura. No fundo, aquele pedaço de fronteira ensinou-nos que, mesmo quando a bola rola e disputamos o território, o melhor golo da noite é sempre aquele que se celebra com uma bifana numa mão e uma imperial na outra, venha ele de cá ou de lá da linha.
Ganha Portugal!
NB

 

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