( A escrita na primeira pessoa não é vaidade; é honestidade. É uma das formas que temos de processar o mundo e dar corpo àquilo que vivemos. Alguns dos meus textos são biográficos. Afinal, como poderia ser de outra forma? É absolutamente impossível tirar de mim o que aconteceu comigo, seja o que me trouxe luz, ou o que me deixou na penumbra. O meu blogue, Escreve-me Devagar, é um espaço onde edifico histórias, resgato memórias e acolho os outros em mim. E, no final de contas a escrita também nos ensina a amar melhor. )


Foi precisamente através do Bowie que reaprendi a ver o mundo com um amor renovado. O Bowie entrou na vida da minha família num momento de silêncio e luto. A nossa Daisy, uma Papillon que nos acompanhou durante 17 anos incríveis, tinha partido e o meu marido vivia um período longo de recuperação, depois de um atropelamento numa passadeira a caminho de casa. Confesso que tive receio de me apaixonar pelo Bowie. Tive medo de voltar a criar uma ligação tão profunda e única, o velho medo de amar e perder. Mas o afeto nasce sem pedir licença. O amor pelo Bowie contagiou-nos a todos e dispensa palavras. De repente o som das patinhas pela casa preencheu o vazio que a ausência da Daisy tinha deixado. Os latidos e as brincadeiras transformaram o ambiente da casa num lar alegre e divertido. O sofá passou a ter mais um ocupante e o meu colo também.
Esqueçam o David Bowie original! O verdadeiro starman vive aqui em casa, tem quatro patas e as orelhas mais aerodinâmicas que conheço. O Bowie é um Papillon tricolor que parece ter saído de um anúncio de champô. Tem a aura de uma diva da pop, mas o seu verdadeiro superpoder está na simpatia e nos olhos alegres e penetrantes. Com um simples olhar, ele faz uma espécie de hipnose canina que me faz esquecer tudo o resto. O Bowie tem uma missão: alegrar todos aqueles com quem se cruza e que estão dispostos a parar e dar-lhe atenção. É um colecionador de afetos, acumulando festas e elogios de conhecidos e de perfeitos estranhos. Para conseguir o que quer, adota uma linguagem corporal que parece saída de um documentário da National Geographic, imitando as danças encantatórias das aves exóticas. Um espetáculo de sedução animal que sela sempre com uma patinha no ar, em modo de aperto de mão diplomático. Irresistível! Se houvesse uma eleição para o cão mais simpático e popular do bairro, ele ganhava com maioria absoluta. E Eu? Eu continuo a escrever por aqui, a escrever devagar, para ter a certeza de que nenhuma destas memórias se perde no caminho.
NB

