

Há lugares que nos reclamam antes mesmo de os conhecemos. Saímos, cruzamos fronteiras. Pisamos uma calçada pela primeira vez e num sobressalto silencioso, o corpo reconhece o chão. Aconteceu-me em Berlim. Uma viagem planeada e cancelada por duas vezes à última da hora. Sem desistir, à terceira não houve como enganar e até o que não estava bem ajudou a contrariar o azar.Em Berlim encontrei um eco nos seus muros de história. Uma familiaridade na sua luz de ferro. Uma cadência na sua modernidade que não pertence à minha biografia oficial. Ainda assim, pulsa em mim como uma certeza antiga. Sócrates tinha razão ao sugerir que não pertencemos a um único pedaço de terra. Somos, por natureza, cidadãos do mundo. A alma não conhece passaporte. Não aceita limites geográficos, fomos moldados para habitar o todo.
Caminhámos sob as árvores do Tiergarten que rasga a verde o coração da cidade. Fomos surpreendidos por um dos três memoriais de homenagem aos 80.000 soldados soviéticos que morreram durante a Batalha de Berlim. As cicatrizes da Segunda Guerra Mundial estão gravadas por toda a cidade, são um murro no estômago, um apelo à consciência do Homem. Cruzámos as estações de comboio e de metro na caligrafia dos livros que fomos lendo para chegar ali. Sentámo-nos nas margens calmas do rio Spree através do brilho tímido do entardecer de maio. Escutámos a babel dos mercados alternativos, cheios de gente gira a falar diferentes idiomas, a comunicar com a ajuda do sorriso, do olhar e da vontade. Sentimos o cheiro a comida turca e a currywurst servida em cada praça na cadência de músicas que nos desenharam mapas invisíveis na pele. Um número de breakdance no Mauerpark transportou-nos por instantes à magia de Michael Jackson e aos anos 80. O imaginário constrói mundos no escuro do inconsciente. Uma Berlim feita de desejo e memória latente que surpreende quando menos se espera.
Acredito que a vida também é isto, cada vez que nos permitimos, simplesmente, ir.
Nesta cidade, o passado não se esconde. Quando seguimos para West Side Gallery o olhar tropeça no que resta do Muro. Repousa nas cicatrizes a olho nu dos velhos edifícios que sobreviveram à brutalidade da Segunda Guerra Mundial. Depois, ergue-se diante da imponência fria e simétrica dos traços arquitetônicos soviéticos no lado oriental. Ao longo do rio Spree mais de 100 artistas foram pintando o Muro. Destaca-se o mural icónico de um carro antigo da Berlim Oriental, o Trabant. Há sempre fila para fotografar a famosa pintura do beijo entre o líder russo, Leonid Brezlnev e Erich Honecker da DDR, da autoria de Dmitri Vrubel que remonta a 1990. O que resta do muro será sempre visita obrigatória. O frenesim eterno estende-se por outros pontos da capital. A Alexanderplatz é um espaço multicultural, onde o mundo inteiro converge. Cenário das maiores manifestações que antecederam a reunificação da Alemanha a 3 de outubro de 1990, não sem antes se ouvir por todos os continentes o estrondo feliz da queda do Muro de Berlim, a 9 de novembro de 1989. Hoje turistas e berlinenses cruzam a Alexanderplatz sem pressa.
Subimos à Berliner Fernsehturm, a Torre da Tv, o mirante, o edifício mais alto da Alemanha. Não queríamos perder a oportunidade. A uma altura de 368 metros, o mundo lá em baixo aquieta-se num silêncio quase teatral. Observamos tudo em volta. A imponência da Berliner Dom, a Catedral, e a serenidade da Capela da Reconciliação recortam o horizonte, sussurrando promessas de paz e apelos ao diálogo. Lá do alto, a memória ganha relevo. Torna-se impossível não lembrar que, ali muito próximo, em 1963, John F. Kennedy proferiu as palavras que ecoam até hoje: “Ich bin ein Berliner”. O peso da história e o culto da memória estão por todo o lado. São o próprio ar que se respira.
O olhar pousa, inevitavelmente, no Parlamento Alemão. O Bundestag é outra paragem obrigatória. A sua cúpula de vidro e aço, desenhada por Norman Foster, ergue-se como uma obra-prima da arquitetura moderna. Aquela transparência não é apenas estética. É um manifesto de abertura política. Um compromisso inabalável com o afastamento definitivo dos regimes totalitários do passado.
Sei que Berlim não é imune às dores do presente. A crise migratória que atravessa a Europa, a gentrificação galopante e o declínio económico são uma onda sísmica sentida pelo viajante em qualquer parte do mundo. Há um movimento constante nas ruas, réplicas sociais que causam danos visíveis e invisíveis. Mas não vou por aí nesta partilha. Escolho repetir a viagem contando-a por escrito no seu lado mais luminoso. Foi a primeira vez que visitei Berlim, mas já fiz outras incursões noutras regiões da Alemanha. Vivi um mês em Heidelberg, enquanto estudante de língua alemã. Desta vez senti que regressava a Berlim sem nunca lá ter estado. Procurei explicações para este sentir. Confesso que nenhuma me satisfez. Tudo se afigura pouco racional, mais emocional.
Talvez a explicação seja mais perene e vasta. Talvez tenha viajado em espírito muito antes de o tempo ser tempo. Visitar esta cidade não é descobrir o novo. É um exercício de arqueologia afetiva da história recente. Uma narrativa sempre incompleta, propositalmente incompleta neste relato de viagem, nos grafittis do bairro de Kreuzberg, na Ilha dos Museus rodeada pelo rio e por jardins que convidam a uma cerveja, no Checkpoint Charlie a recordar o período da Guerra Fria, na Potsdamer Platz tão moderna, mas que foi totalmente destruída na Segunda Guerra Mundial, no Memorial do Holocausto, na Victory Colum, ou no emblemático Portão de Brandemburgo no final da Avenida Unter den Linden.
É regressar a Berlim como quem regressa a casa, sem nunca lá ter morado.
NB



