
Mãe,
Hoje olhei-me ao espelho e procurei o azul. Está aqui, o mesmo azul que tinhas nos olhos, como se o horizonte que tu contemplavas tivesse ficado guardado nos meus. Dizem que sou otimista, que encontro sempre o lado positivo das coisas, como tu, mas falta-me esse teu “vagar” sagrado, essa paciência doce de quem sabia que tudo se resolvia com tempo e amor.
Ainda te ouço a dizer com aquele sorriso conciliador: “Vão, divirtam-se, que eu cá resolvo com o meu vagar.” Tu não querias apenas arrumar a casa, estavas a construir a nossa liberdade. Tu que trabalhavas tanto, oferecias-nos o teu tempo para que o nosso fosse leve e proveitoso. Hoje também sou mãe, percebo o privilégio que é replicar o que me ensinaste. Falamos muito de ti, conto às minhas filhas, às tuas netas, as tuas histórias para que saibam que a doçura e a paz têm um nome: o teu. Olho para elas e vejo o milagre da continuidade: numa delas, o teu sorriso insiste em permanecer, é um susto doce ver os teus traços nela.
Escrever continua a ser para mim uma forma de regresso. No meu blogue, e mais tarde no meu livro, “Venho de Lá”, procurei sempre as raízes que me sustentam. Mas hoje à porta deste Dia da Mãe, tantos anos depois da tua partida, a escrita pesou-me de uma forma diferente. Onze anos de ausência física são, na verdade, onze anos de uma presença que se tornou tinta, que se materializou na escrita.
Este Dia da Mãe é feito do azul que partilhamos e do “vagar” que me ensinaste a valorizar. Continuo a escrever-te, mãe. Hoje o “Escreve-me Devagar” é um colo para a saudade, porque a saudade de uma mãe é um território onde o tempo não manda. E a ausência parece tão fresca como o ar daquela tarde em que tudo mudou.
Tenho em mim essa tua exigência que os outros confundem com distância. Acredito que todos precisamos de marcar um circulo de giz onde guardar a nossa verdade, não prescindo do meu. Faz-me falta o teu discernimento, aquela tua forma de separar o essencial do acessório, especialmente agora, quando o futuro parece um corredor por iluminar. Fazem-me falta as tuas opiniões, esse teu modo tão certeiro de desatar os nós da vida, mas percebo agora que a tua voz se mudou para dentro de mim, onde nem sempre a ouço. É por isso, que prefiro muitas vezes o silêncio fértil à superfície do mundo.
Serás sempre a minha mãe e eu a tua filha. Esta é a minha arquitetura mais sólida, o meu porto seguro. Se a vida aqui parece um futuro por desenhar, eu uso a tua memória como o traço firme que me impede de perder o norte. Até a casa que, há onze anos, espera pelo seu telhado*(1), ganha hoje um novo sentido literário.
Não quero sair nunca do aperto da tua mão. É a nossa promessa.
Amo-te em cada silêncio e em cada palavra escrita. Onze anos a pensar isto, hoje escrevo-o.
NB


*(1)http://escrevemedevagar.pt/2017/12/16/uma-casa-sem-telhado/