Era pequena, servia apenas para ensaiar o ato de cozinhar que nunca termina e se aprimora a cada repetição. Dali exalam cheiros de uma arte apressada, menos paciente que contrasta com momentos de magia Pantagruel. A refeição  começa no preciso instante em que o olfato é convocado. Nesta cozinha não havia mesa de refeições, nem cadeiras.  Três bancos redondos de madeira moravam debaixo do móvel e das suas duas amplas gavetas, que acomodavam os talheres e demais utensílios indispensáveis aos cozinheiros, que os disputavam à vez. O fogão de tipo industrial respeitava o tempo escasso, sempre atrasado para qualquer coisa que haveria de surgir. A bancada e a pia de mármore apresentavam a pele envelhecida, negligenciada de manchas, marcas de cutelo, de lâminas afiadas capazes de amanhar peixe, desossar carne, fatiar pão, cortar e picar legumes. As conversas à mesa da sala, onde eram feitas as refeições, dependiam muito do que acontecia na pequena cozinha. Os cozinheiros distinguiam-se na organização da bancada e na duração dos aromas que se espalhavam por toda a casa. O pai barbarificava a bancada, termo que nasceu da observação do seu método de cozinhar. A cozinha transformava-se numa paisagem agitada ao vento, cascas de cebola, de alhos, sementes de pimentos e malaguetas, frascos de ervas aromáticas e condimentos, whisky, cerveja, vinho branco, tábuas manchadas de sangue de peixe, ou carne e um cheiro maravilhoso a desordem,  apurado de aromas e intenso paladar. O pai explicava a magia das cores que adicionava à panela, falava do caril, açafrão e de como aprendera a usar as especiarias, quando cumprira o serviço militar obrigatório em Angola, durante a Guerra do Ultramar. A arte de tornar comestível o que não o era, só possível recorrendo ao sal, às especiarias e ao álcool. A mãe dominava a cozinha com harmonia, sentido prático e uma habilidade quase mágica para se ausentar e estar em vários lugares à vez, retomando no ponto certo do cozinhado. Não ficavam migalhas, cascas de cebolas, ou de legumes na bancada e muito menos no chão. Igualavam-se na qualidade dos cozinhados, no toque cromático do empratamento, no sabor,  à exceção do picante, indispensável ao pai.

A cozinha era de todas as divisões da casa o lugar onde tudo estava certo, mesmo quando alguém, ou alguma coisa surgia em contramão. Laboratório dos sentidos, do bem-estar doce e salgado, em que tudo se aproveita com arte, até as sobras. O pai abominava o dia São Restos e só ele tinha direito a tal leviandade. Lembro-me de uma lata redonda de guardar o pão, branca com uma tampa em forma de rosca, verde. Eu e o pai não gostávamos da lata do pão. A mãe repetia, a propósito, não interessa se gostam, ou deixam de gostar, é como na família, não gostando de todos, aprende-se a estar. A mãe sempre justa usava de uma ironia muito particular e pelo canto do olho apreciava o poder das suas sentenças.

Demorou pouco para que a pequena cozinha  e os dois cozinheiros perdessem o propósito. Cinquenta anos, quarenta,  um pouco menos? A velha lata do pão terminou a existência num ecoponto entre o vidro e o papelão. A lata do pão que era uma espécie de barômetro da tolerância naquela cozinha. O pai e a mãe amadureceram tão depressa que foi impossível manter o cheiro maravilhoso dos cozinhados, da sua presença, das suas vozes  na cozinha paraíso, que a saudade apelidou.

A memória é o primeiro impulso para a escrita. A ausência ajuda a amar melhor. Cozinhar é cuidar, é criar aceleradores de memórias.

NB

 

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