

Antes de me adiantar na vastidão plana e rochosa do deserto de Zagora, venho à “boca de cena” justificar a narrativa descompassada e os hiatos temporais que fazem interrogar quem acompanha esta aventura em Marrocos. É simples, a redatora e argumentista, quem mais se diverte a recuperar tudo isto para o blogue, teve uma avaria como acontece com os carros e depois de uma cirurgia estou de volta com vontade de dar continuidade à viagem.



On y va,
Zagora é ponto de partida e entreposto para os problemas técnicos e mecânicos que o troço reserva. É também o nome da cidade que serve de porta de entrada ao maior deserto de Marrocos- Erg Chigaga. Como destino turístico é menos explorado que o Erg Chelbi. Toda esta região já foi fundo oceânico e por isso é fácil encontrar fósseis nas pedras espalhadas neste território. Saímos cedo do hotel e deixamos para trás as cores a que nos acostumámos, o ocre das construções, casas erguidas com paredes de palha de tamoreira e barro, sobretudo fora da cidade. Zagora tem fama de ser a cidade onde se produzem mais melancias, mas não comi nenhuma. Foi dia de comer pó, saltitar com o corpo todo ao ritmo da trepidação, tirando partido da mega drenagem linfática que a irregularidade do terreno oferecia. Puxe-se da imaginação e do léxico.
Foi preciso mais que isso. Foi preciso os cinco sentidos e mais um, anoiteceu e estávamos fora de rota. Volto atrás na memória da jornada de olhos fechados a ver o que nos deslumbrou: as pistas, o terreno plano com madouars (formações rochosas que parecem tampos de mesa) no horizonte, o pó, pedras a rolar, a saltar, mãos firmes no volante e a distância de segurança. Circulávamos em pistas paralelas, visibilidade diminuída pelo pó e as instruções do briefing, bem presentes, para que os veículos não choquem acidentalmente. Vemos árvores de copas alongadas a lembrar os documentários da savana, no National Geographic. E, inesperadamente, ficamos sem um dos carros e só estávamos a começar. Duplo furo. Check!

Foi um almoço diferente. Refiro sempre umas notas sobre os almoços, desta vez digo que foi o mais fraquinho dos almoços e os meus companheiros concordarão. Quando dois elementos ficam para trás para pedir ajuda e levar o veículo para Zagora, há uma espécie de hipoglicemia coletiva. O café Delta, como habitualmente ajudou-nos a prosseguir.


No meio do nada surgia alguma vegetação rasteira por entre as pedras e a aridez do solo. E inesperadamente, encontrámos crianças acompanhadas de outras crianças, famílias com os seus animais. Um misto de emoções tomou conta do grupo ao confrontarmo-nos com as carências, a pobreza, o sorriso e serenidade desta gente. A esconder as lágrimas uma das companheiras de viagem calçou uns pequeninos ténis vermelhos nos pezitos de um menino de três anos. Felizmente não tínhamos descarregado totalmente os carros, nem entregue todos os bens recolhidos pelo grupo. Foi o sítio mais pobre e inóspito, onde passámos. Comovi-me ao ver a minha filha entregar a uma menina da mesma idade os chinelos que trazia nos pés. Como conceber que alguém não tivesse o que calçar? Ponderei não incluir este episódio no relato da viagem, mas decidi fazê-lo. Perdemos demasiado tempo a julgar, a analisar, a lamentar e tudo são instantes. A nossa viagem foi feita de milhares de instantes e este, de alguma forma, foi feliz. O que têm de diferente estas crianças e as nossas? Diria que o lugar e a família onde nascem. Ao vê-los afastarem-se felizes com o pouco que receberam, lembro-me que até o maior deserto tem os seus limites e desejo que um dia saibam procurá-los, ultrapassá-los sem soçobrar ao medo de construírem um futuro melhor. Quando o dia se apagar sei que nada do que é importante se perdeu.



A pista, onde os pneus procuram aderência, é salgada. Pisamos o Lago Iriki, uma reserva que fica entre o rio Draa e o sopé do Anti- Atlas, perto da fronteira com a Argélia. O maior playground dos condutores, que aproveitam para acelerar motores até mais não. Ensaiou-se uma corrida de carros à Hollywood. Não se desperdiçam oportunidades. Dos dezasseis restam quatorze a correr como cavalos nas pistas de Epson Downs em Inglaterra, que é como quem diz no Lago Iriki. Um filme!

(No dia seguinte temos alcatrão até Marraquexe.)
Titanic, o nome surpreendeu-me, mas não há lugar no planeta onde o nome do transatlântico e o seu infortúnio seja desconhecido. À nossa frente um bar restaurante e nisto ponho reticências, o conceito de restauração não corresponde ao europeu. É uma construção de dois pisos em argila em forma de barco. Subir ao terraço permite uma vista fantástica da superfície árida e salgada do Lago IriKi. Bebemos chá na esplanada improvisada e aproveitámos para fotografar ao por do sol e uma lua cheia a brilhar no céu. O horário estabelecido para o percurso foi ultrapassado como de costume. Seguimos o roadbook, sem estradas, apenas troços. Aqui começa a história, que o grupo não esquecerá. As boas histórias nascem de imprevistos, do que começa mal e acaba bem.




A frase preferida do guia: “Nunca nos perdemos, ocasionalmente podemos estar fora da rota.”
Estivemos algumas horas fora da rota. O resultado foi uma noite de luar maravilhosa, nada enfadonha (leia-se com um pozinho de ironia), condução difícil, seixos grandes a obrigar à perícia para impedir danos colaterais. Não havia pó, comíamos uma geografia dura, feita de seixos de tamanho considerável. Lembro-me de pensar, que estávamos na Semana Santa, dia 6 de abril. Imaginei aquele caminho, como um calvário. O estomago vazio dava asas à desordem dos pensamentos. Chegámos a uma grande clareira, um coro de vozes repetia: um oásis. Era o oásis que nos tinha maravilhado de dia, o que significava que andámos em circulo, (já ouço a correção do guia). O oásis tem outro encanto ao luar. O carro que jaz avariado, uma espécie de monumento/ espólio do Paris-Dakar, faz outra vez as delícias de quem lhe toma assento, de quem confessa ter desejado passar por ali de noite( deixo uma piscadela de olho ao J. Reis). Há gente ali, há famílias de pastores e nem uma única luz. Vem-me à memória uma música da Barbara Tinoco& Barbara Bandeira:
E eu até queria ver as estrelas,
Que a noite nem parece a mesma sem elas,
Uma mulher sentada numa laje, debaixo de uma árvore, admira o céu noturno. Tento comunicar com ela. Sorri, ergue as mãos ao céu. Imito-a. Toca-me nas calças, percebo que as quer. Têm elefantes desenhados e isso fascina-a. Encontro alfazema nos bolsos fundos das calças indianas e ofereço-lhe a cheirar. Com as mãos em concha leva-as ao nariz e cheira a alfazema. Depois guarda-a no peito. Olho-a antes de partir, não acena, devolve-me o olhar. É Sexta-Feira Santa, cada um foi morrer o cansaço para o quarto. Não jantámos, fizemos jejum. Era demasiado tarde e o serviço de restauração estava encerrado.
Como se pode acreditar em mudar o mundo? É mais simples e natural querer apenas fazer parte dele, todos os dias. Começar à porta de casa, ou começar pelo lado de dentro. O deserto de Zagora entrou nas nossas vidas. Na manhã seguinte conheceríamos os homens que trabalharam toda a noite para recuperar as maleitas das viaturas. Conheceríamos a mecânica feita do talento, da prática e do conhecimento empírico. Testemunhámos um povo genuíno, acolhedor, resiliente e contente por receber os viajantes. A Páscoa e o seu significado encontrava relevância no grupo em Marrocos.

N.B.