
(continuação)
Madrugar é um verbo aparentado com viajar em Marrocos. Deixámos bem cedo a kasbha em Merzouga e o imenso deserto que nos entrava pela sala de refeições. O coro de vozes ao pequeno-almoço é já um habitué. Objetivo seguir para Zagora. A caravana parte com constrangimentos técnicos num ou dois veículos. A viagem promete cenários contrastantes com a imensidão das dunas do Erg Chelbi. ” Não há pó para comer”, há montanhas e desfiladeiros e pelo meio um palmeiral verdejante entre aldeias fortificadas de cores argilosas, áridas. Um trajeto soberbo feito de várias paragens, algumas por questões mecânicas. A cor ocre predomina nas construções de adobe das aldeias. Um cenário cinematográfico que acusa a presença da água que vem das montanhas do Alto Atlas. O rio Draa dá nome ao vale do grande palmeiral marroquino, que se estende por mais de 200 quilômetros. Nasce a vontade de armazenar a luz e as cores do vale do Draa, a cada fotografia. Somos muitos, os fotógrafos, empenhados nesta ilusão. Há outros viajantes a circular na mesma estrada que motivam o registo fotográfico, camionetas com excesso de carga, motorizadas com atrelados, burros, peões.
Vou para o que quero lembrar, os Monkey´s Finger, uma das mais antigas cordilheiras do Atlas que aparenta na formação rochosa os dedos deste animal, o macaco, pela ação milenar do vento e da água. Uma visão incrível do poder arquitetônico da natureza, acentuado uma vez mais pela cor laranja avermelhado. A Natureza continuou a surpreender-nos na aproximação às Gargantas do Todra, um desfiladeiro, por onde passa um riacho, ladeado de penhascos ou arribas de calcário. O jogo de sombra e luz é constante há medida que entramos nas Gargantas do Todra. A estrada estreita serve de montra a vendedores de roupa e marroquinaria. E eram tantos os turistas, os mais aventureiros fazem escalada, coisa de impressionar, bastava tentar alcançar o cima da arriba rochosa com o olhar para se sentir desequilíbrio. Pude testemunhá-lo. E não sei como, na estreiteza da via, circulam autocarros, motards, e turistas ávidos de refrescar os pés no riacho. A paragem seguinte manteve o espetaculosidade da jornada. Serpenteamos a estrada pelas entranhas rochosas, agora, até às Gargantas de Dades. Impressiona pelos ganchos consecutivos e pela profundidade que se avizinha nas bermas protegidas. Nem sempre foi assim, hoje a segurança deste troço está garantida com raids e um pavimento exemplar. No topo da serpente de alcatrão há um bar com vista panorâmica onde registei a fotografia que despensa considerações.
Para o fim, deixo coisinha pouca com graça e ironia. Tanta maravilha natural, tanta geografia feita de contraste tem de se sentir nas máquinas de quatro rodas. Um dos carros ficou sem luzes e não fossemos ter, no grupo, mais do que um Macgyver, foi num ápice que se improvisou com fita americana uns novos faróis com pilhas de campanha. A travessia em montanha, de noite, foi feita com mínimos improvisados. Uma história de superação a juntar a outras que viriam depois.
Quem lê, habitualmente, este relato de viagem estranhará a falta de referencia ao almoço, a que dou sempre destaque. Desta feita, não é diferente. Estacionámos num viaduto de uma linha de água da estrada, uma espécie de manilhas. Não é a comida, nem o café ou as bebidas frescas nas arcas frigoríficas que acrescem a narrativa costumeira. Dançamos, dançamos kizomba, mornas, não sei precisar. Dançamos sons africanos ao sol, enquanto os carros gozavam a sombra do viaduto. Só as mulheres, como num princípio do mundo, embalaram os corpos, pisaram com ritmo e leveza nos pés, enquanto nasciam coreografias. Há qualquer coisa que combina com o lugar, a claridade, o calor que desperta ritmos para os quais não há tempo. Falta tanto para Zagora.
Inevitavelmente, não cumprimos o horário previsto na chegada a Zagora, que nos recebeu de noite. Jantámos tajines. O cansaço era gigante e já parecíamos habituados a dormir e a acordar em camas desconhecidas. Só que não!
(continua)
N.B.














