(continuação)
Acordámos às portas do deserto. A kasbha onde nos alojámos avizinha-se ao Erg Chelbi, conhecido como as Dunas de Mergouza, um conjunto de dunas do deserto do Saara de Marrocos, em que as mais altas podem atingir 150m de altura. O deslumbramento servido ao pequeno-almoço deixou-nos de olhos postos no cenário. A sala e o todo o acomodamento exterior pareciam prolongar-se na imensidão do deserto. Um oceano de areia tão belo e perigoso quanto o outro, feito de água. Era a segunda vez que tinha um deserto de tons mesclado de amarelo para olhar. A primeira vez foi há muitos anos numa viagem na Tunísia. A sensação repetia-se, uma espécie de plenitude e liberdade que tem de existir para se fazer sentir.
O pequeno-almoço ganha o ritmo de 44 pessoas a falar, a circular, a degustar outros sabores . O chá, as variedades de pão, os doces e compotas provocavam um vaivém de pessoas e recomendações. E antes de sairmos para o primeiro contato com a areia, um pedido para que trouxéssemos um ovo cozido do pequeno-almoço. Ainda procurei saber o porquê, mas era surpresa.
Partimos para um percurso de 100km em redor do Erg Chelbi, onde os condutores fizeram o “curso de iniciação” em areia. A teoria nem sempre é fácil de aplicar na prática e a areia é coisa fina, resvaladiça. Mais que isso, é preciso saber deslizar, surfar as dunas como se fossem ondas. Houve diversão, atascamentos, teimosias, gargalhadas. A areia é terreno fértil para incorreções, tal como fora advertido no briefing que antecedeu a experiência. Insistiu-se uma e outra vez, em pequenas dunas e querendo ir mais além. Quando já todos pareciam graduados e alguns a querer passar ao nível seguinte, o calor já se fazia sentir e o grupo aceitou a alteração de rota. Seguimos em pista advertidos pelo guia, JB, que o pó e a bifurcação de pistas exigiam atenção redobrada. A proximidade ao Erg Chelbi cria várias pistas e trilhos muito movimentados com a presença de motos, de 4×4, de jipes dos quatro cantos do mundo que vêm desfrutar das dunas. O pó reduz a visibilidade e ajuda à desorientação que alguns experimentaram.
A surpresa chegou ao almoço, quando montámos o acampamento numa sombra de árvores, excepcional, perto das grandes dunas. Era Alentejo em África, e porque não?! Os ovos cozidos tinham um propósito, a preparação de uma açorda de poejos. E havia de tudo, mais uma vez, pão alentejano duro como se pretende, pasta caseira de coentros, água fervente, azeite português e os ovos cozidos do hotel. “O nosso restaurante” reinventava-se a cada dia e os convivas tinham sempre tanto para conversar. Ocorre-me dizer que cada país tem seu pão, cada cidade, cada aldeia tem seu pão. Comer pão português, pão alentejano, numa açorda de poejo junto ao deserto marroquino é uma história improvável que nos aconteceu.
O corpo pedia descanso. O final de tarde teve banhos na piscina da kasbha. O pôr do sol, nas dunas do Erg Chelbi, trouxe a introspecção e a promessa que cada um quis dar. As bebidas frescas não aqueciam nas mesas e outra tajine foi servida ao jantar. Depois novo briefing adiantava o dia seguinte. Estávamos prontos e conhecíamos algumas palavras, termos que identificavam coisas, bebidas , comida. Sentíamos Marrocos.
(continuação)
N.B.








