(continuação)

(Sem querer fazer spoiler, a etapa 3 levou-nos à “Suíça marroquina”, descobrimos onde nascem as crianças em Marrocos e  subimos A Escada para o Céu.  Palavra de viajante!)

Fes, a grande urbe marroquina, ficou para trás perdida no espelho do retrovisor. O novo propósito é Merzouga às portas do deserto.

Seguimos na direção de Ifrane, a estância de esqui do rei, situada a uma altitude de 1.650m. É conhecida como a “Suíça marroquina” pelas casas de estilo alpino, os chalets e a floresta de cedros. O palácio real e os jardins floridos embelezam a estância. Os macacos-de- Gibraltar têm nesta floresta o seu habitat natural. Vimo-los nalgumas clareiras junto à estrada. Tivemos alguns contratempos que servem à narrativa da viagem e a conversas futuras. Foi o percurso com  maior número de controlos de velocidade da polícia marroquina, atrasando-nos e, sem que escapássemos à multa. Um dos carros acusava problemas na bateria. As regras de condução em coluna não foram ainda interiorizadas e empurraram o TT vassoura, pilotado pelo mais experiente dos participantes, a uma distância de 20km do veículo da frente. A etapa 3 exigia paciência e foco. Por isso, faz sentido passar ao almoço, o momento sagrado de partilha e reorganização da caravana. Parámos numas bombas de gasolina com um grande parque de estacionamento, só para nós. As montanhas nevadas do Atlas serviram de cenário à animação ruidosa dos preparativos. Os carros vinham apetrechados com geleiras, mesas, fogões, máquina de café expresso e tudo o que serve a quem cultiva o prazer da estrada, ciente que a aventura faz-se de preparação. Destaco o momento do café, do bom café Delta. A provisão de broas, biscoitos, boleimas, bolos  e digestivos atribui laivos de requinte ao almoço volante.  De volta à estrada, a paisagem ia mudando nas cores e no relevo. Vimos pastores acoplados a construções rudimentares, talvez  sazonais. Talvez pastores nómadas. Vimos burros presos na beira da estrada, outros conduzidos por crianças. A paisagem a surpreende, a dar espetáculo. E há escolas em todas os lugares onde passamos. Há escolas, porque há crianças, há muitas crianças em Marrocos.

O sol ia alto quando entrámos no grande cannyon. Um trajeto soberbo com grandes formações rochosas de cor ocre. Parámos para admirar o grande cannyon e o palmeiral junto ao restaurante panorâmico, Jurássico. Que nome sugestivo. Desentorpecemos as pernas e tirámos fotografias. A etapa Fes – Merzouga, de aproximadamente 500 quilômetros, estava longe de terminar.

Entramos em pista e deixamos o alcatrão. A dureza do terreno estilhaçou-se em nuvens de poeira. Os 16 veículos desapareciam engolidos pelo pó. Pelo retrovisor distingue-se o brilho dos faróis, parecem pirilampos a serpentear o terreno, enquanto o sol desaparece desinteressado da nossa presença.  Prosseguimos no lusco-fusco à procura da cidade de Órion. Encontrámo-la, já noite. Iluminámos o lugar com a ajuda dos carros e subimos, A Escada para o Céu. Explico o aparente relato fantasioso: Hannsjorg Volth criou no deserto marroquino, perto da cidade de Rissani, uma triangulação de construções, as Pirâmides de Órion, a Espiral de Ouro e A Escada para o Céu. Seguindo cálculos astronómicos precisos, quis imitar na terra a constelação de Órion, unindo a terra ao céu. 

As crianças outra vez.

**De onde vêm tantas crianças? Fomos vendo que a população marroquina tem uma grande percentagem de jovens. Atravessámos aldeias e palmeirais. De onde vêm tantas crianças? Aparecem em bandos, correm ao lado da caravana, dificultam a condução, batem nos vidros, pedem dirrãs, comida, roupa, sapatos, brinquedo, tudo. Ladeiam o caminho, sozinhas ou acompanhadas e acenam, sorriem, gritam. Paramos. Temos roupas, brinquedos, material escolar, comida. O chefe da aldeia recebe os donativos num momento emotivo e desconfortável. Não deixa de ser um paradoxo que fazer uma criança feliz provoque tanta tristeza na alma. No deserto de pedra confrontar-nos-íamos  com uma situação pior.

Finalmente, Mergouza e a kashba onde pudemos tomar banho, jantar e descansar, não necessariamente por esta ordem, os meus companheiros de viagem percebem a piada. A kashba foi uma excelente escolha. A tajine de galinha e a hospitalidade mostrou o que todos suspeitávamos, os dias podem ter 48 horas em Marrocos. Ninguém nos avisou. Alguém já sabia?

(continua)

**Em jeito de brincadeira alguém disse que em Marrocos as crianças nascem dos palmeirais. Tornou-se uma das frases da expedição.

N.B.

 

 

 

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