Antes de ler o que se segue, recomendo o recuperador de memória, que é como quem diz o texto que lhe precede. Fomos visitar a nossa tia a Marrocos – a deixa para uma expedição aventurosa, um roteiro ambicioso tendo em conta os 16 veículos TT e 44 participantes. De Chefchaouen a Fes distam cerca de 300km, poucos troços de estrada complicados, as infraestruturas rodoviárias marroquinas apresentam uma franca modernização, mas há muitos controlos de polícia e radares de velocidade. São garantidas quatro horas de viagem mais as paragens técnicas e almoço. O briefing deu ênfase às regras de condução em caravana na cidade, afinal Fes é a 2ª maior cidade marroquina a seguir, a Casablanca. Fundada por Idriss no século IX, mantém o fundador como padroeiro. A título de curiosidade registo quatro notas:
*é a maior extensão urbana sem trânsito automóvel, refiro-me à Medina, património cultural da UNESCO, desde 1981;
*é a cidade mais marroquina e o seu núcleo histórico é o mais bem preservado do mundo árabe;
* é uma das 4 cidades imperiais de Marrocos, a par de Rabat, a capital, Marraquexe e Casablanca. Foi capital de Marrocos até 1912;
*foi fundada por refugiados da Ibéria Islâmica e emigrantes vindos da Tunísia.
Entrar em Fes com 16 veículos em caravana foi um pouco assustador. O trânsito era imenso, carros, velocípedes e transeuntes que atravessam a via com uma naturalidade, que para mim se assemelha ao princípio do caos. O grupo esforçava-se por cumprir as instruções dadas no briefing. Aproximávamo-nos da velha urbe, a Medina Fes el Bali (a Medina velha), a pérola, rodeada pelos 12kms de muralhas, com várias portas de arco triplo e inspiração mourisca, onde é impossível o turista não sentir a sensação de se perder. De repente, veio-me à memória uma canção de Carlos do Carmo, parecem bandos de pardais à solta, os putos, os putos. Fomos rodeados por crianças que se aproximam dos carros em andamento, que gesticulam a pedir dinheiro, comida, qualquer coisa. Confesso o desconforto, o meu e muitos de nós, especialmente fora dos carros quando a abordagem se intensificou. Há um ritual, por assim dizer, que se instalou nos locais mais turísticos e que leva as crianças, sobretudo, a pedir. Os turistas, também, já chegam preparados com brinquedos, lápis, comida. Sobre isso, escreverei mais à frente. Como nota adianto que nas cidades o que se dá, serve para vender de seguida, o mesmo não acontece nas aldeias.
Passemos ao misticismo labiríntico da Medina com as suas Madraças, escolas religiosas, a Chaouwara, aérea dos curtumes e o frenesim de gentes e burros que transportam viveres e o lixo para fora da Medina. A magia e o caos. O império dos sentidos, na verdadeira acessão da palavra, o cheiro dos curtumes e dos produtos de couro, das especiarias picantes, as cores intensas, o brilho dos metais, da prata bereberé, da seda e da lã. A visita fez-se com três guias oficiais, na relação necessária à divisão do grupo. Recordo a Madraça, Bu Inania, visualmente maravilhosa, ornamentada de azulejos, madeiras de cedro e gesso pormenorizadamente trabalhado. Faltam olhos para abarcar o tanto que oferecem as ruelas labirínticas. É quase frenética a convocação dos sentidos, querer deter-me no rosto gasto de um artesão, ouvir e seguir o guia, admirar cores e tons e simultaneamente sentir e adivinhar aromas e cheiros agressivos e estranhos, até então. A sensação de nos perdermos ali, é real. Não há Google Maps ou Gps que nos oriente na Medina de Fes, o mesmo não senti na Medina de Maraquexe. Tentei afastar essa impressão. A descontração e o divertimento seriam servidos ao jantar para surpresa de todos.
De modo que, quero mesmo usar esta expressão, quase ensaiamos um Masterchef na cozinha do hotel em Fes. Ressalvo, antes de continuar, que ficámos alojados num bom hotel, bem referenciado. Sigo direto à ocorrência. Num zás traz pás, a gerência do hotel informa que, contrariamente ao previsto, só serve jantar à carta, mas não dispõe da maior parte das opções, acresce ainda a falta de pessoal em virtude do Ramadão. É caraterística do português a capacidade de improvisar, o vulgo desenrascar e, sendo o marroquino um negociante nato, houve jantar. A cozinha do hotel contou com dois chefs, o marroquino e o nosso. Houve corrida da cozinha para a sala, para recuperar o atraso inicial. Houve variedade de pratos e sabores, cerveja marroquina, vinho, gargalhadas, brindes por tudo e por mais qualquer coisa. O staff gostou tanto da simpática ingerência que num gesto surpreendente arranjou um bolo de aniversário para festejarmos um dos nossos amigos. Só Alá poderá saber como tal foi possível.
Se por hipótese tivesse de guardar apenas dois momentos desta aventura de 10 dias em Marrocos, escolheria o hilariante jantar, em Fes. Diz-se que à mesa se estreitam relacionamentos. À mesa deste improvável hotel o grupo tornou-se autêntico. O outro momento é, sem dúvida, o acordar às portas do deserto. Uma vida não chega perante tamanha imensidão.
(Continua com a etapa 3 e 4, a caminho de Merzouga)
N.B.


4 Comments
Como já é hábito, gostei muito deste post pelo qual a felicito.
Muito obrigada, Isabel.
Mais uma postagem que me encantou…
Obrigada pelo comentário e por ser leitora. Um abraço 🙂