Eram pouco mais de uma dúzia, um traz outro e outro mais outro, amigo convida amigo, de repente já eram vinte e a somar. No fim das contas, 44 pessoas e 16 veículos TT foram visitar “a tia a Marrocos”. Muitos, de nós, não nos conhecíamos, não faltou a oportunidade de o fazer e de registar episódios memoráveis, na graça e na surpresa. As viagens fazem-se de paisagens, de cores, de pessoas e de imprevistos. Assim, se fez a Expedição Marvão- Marrocos, organizada pela Horta do Tijolo e todos os que nela participaram.

Azul Majorelle**, um azul vivo, de saturação intensa foi a cor da primeira etapa – Chefchaouen, conhecida como, A Cidade Azul. Há um ditado português que diz ser impossível, “meter o Rossio na Petesga”. Em Chefchaouen provámos que não há impossíveis. Estacionámos, milimetricamente, os 16 veículos numa garagem improvável, conseguimos jantar na praça Uta El-Hamman, junto ao antigo Kasbah da cidade, apesar de sermos uma pequena multidão que chegou fora da hora prevista. Entre tajines, cuscus, chá de menta e intensos aromas da gastronomia marroquina, exibiam-se, na praça, artistas em danças e música tradicionais. Ao amanhecer,  alguns de nós acordámos  com o Muezim, o homem que faz o chamamento dos fiéis à oração. Viajávamos por Marrocos no Ramadão, o que acrescentou algo de místico à nossa jornada e à Páscoa, vivida lá.

À luz do dia, Chefchaoeun foi espanto para quem, como eu, não conhecia todo este azul. Foi desafiante enxergar para além da cor. A cidade foi fundada em 1471 quando os mouros fugiam de Espanha e são várias as histórias que justificam a cor que a distingue. Uns referem a frescura das habitações, outros o afastamento dos mosquitos. Quem visita a cidade fica preso à magia das ruas e das casas, à mancha azul que pinta o vale cercado pelas Montanhas Rife, que cruzam várias cidades no norte de Marrocos. Não aproveitámos os souks para as habituais compras dos turistas, não nos sentíamos assim. Talvez porque a maioria já era repetente, em Marrocos. Prefiro pensar, que em Chefchaoeun erámos um grupo de pessoas seduzidas pela vida e cultura marroquina, ao mesmo tempo que  tomávamos gosto à caravana. Ainda não havia cansaço, nem problemas mecânicos e o tempo estava ameno. Os carros disfrutavam do poder terapêutico de rodar pelas novas e excelentes estradas de Marrocos, enquanto nós, os 44 viajantes, aprendíamos o nome uns dos outros, a alcunha, identificávamos a voz. Queria ter feito um diário de bordo, anotado as situações divertidas aos lugares de paragem,  registado as anedotas velhas e as que nasciam em todos os almoços, quando acampávamos e se abriam mesas de campismo e se improvisavam outras. Ricos almoços, em que a cerveja fresca nas geleiras retemperavam dos quilômetros, enquanto se atravessavam, ao olfato e ao paladar, chouriços e cacholeiras assados no álcool, empadas de galinha, bola portuguesa com certeza, presunto e queijo, pão do nosso, enquanto houve, feijoada enlatada, quentinha da frigideira em fogão butagaz, tudo feito na melhor partilha e confraternização como mandam as Escrituras. E nem o café Delta faltou, pelo menos duas vezes ao dia, cumprindo os mínimos recomendados pelo comendador, Rui Nabeiro. Sobre isso, escreverei mais à frente.

Uma viagem com várias etapas e muita gente dentro exige que se escreva devagar.

 

**Jacques Majorelle instala-se em 1923 em Marraquexe e em 1937 cria a cor, azul Majorelle, azul-púrpura, vivo, intenso, entre o azul e os tons violáceos. Utilizou esta cor para pintar a sua villa em Marraquexe, que hoje é uma atração turística.

N.B.

 

 

 

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