Sentada num banco de madeira, cor sangue de boi, vermelho acastanhado escuro e profundo, à época a cor dos bancos da antiga taberna que o pai tinha – uma das mais conhecidas casas de petisco de Santo António A. –  a criança apoia os braçitos no lavatório da casa de banho, na casa dos avós. A mãe molha uma pequena esponja para mais facilmente lhe fazer as fartas traças. Sou eu, a menina sentada no banco, pronta para cumprir a rotina matinal dos penteados e laçarotes. Não terei mais de cinco anos. A cabeça é do tamanho da bola de futebol, que está em cima do armário da cozinha, para que o meu irmão não parta os vasos dos manjericos, da avó Felicidade. A mãe divide-me o cabelo ao meio. Primeiro, desenha uma linha direita, tão direita como a reta dos Vales, no concelho de Marvão. Com perfeição e simetria ganho duas  tranças, uma de cada lado, com comprimento suficiente para que sejam dobradas e  seguras com ganchos, em forma de cerejas. Estou vaidosa, ainda antes de me ver. O espelho pendurado sobre o lavatório não está ao meu alcance. Olho-o e apenas vejo o Charlie Chaplin, o Charlot, impresso do lado esquerdo do espelho com a bengala e o chapéu de coco. Pisca-me o olho, enquanto move o bigode. A mãe dá os últimos retoques no penteado. Eu, cá dentro, já encetei conversa com o Charlot, pergunto-lhe se gosta de cerejas, das verdadeiras. Ele responde-me, cá dentro, que as tranças assim presas parecem duas rosquilhas doces. Estou pronta. De pé no banco, penduro-me no pescoço da mãe, trepo por ela para me ver no espelho. Sorrimos e de rosto colado ao meu, diz a frase do costume, Vês como ficas tão bonita penteadinha ?! Pendurada no seu pescoço, os pés em posição de bailarina a querer encontrar chão, saio da casa de banho, onde o avô Barradas,  habitualmente faz a barba, num cerimonial de espuma e utensílios que adoro observar. Na cozinha, o meu irmão já toma o pequeno almoço, a tigela cheia até ao cimo de pedacinhos de pão, regados cuidadosamente com leite e café pela avó. A mãe abre a porta que une a cozinha à mercearia. Do outro lado, à espera, há mulheres, outras mães, que aguardam para comprar o pão e o leite do dia.

Eu e as minhas tranças andamos por ali, entre a casa dos avós, o quintal e a mercearia. Às vezes, vou onde a mãe passa grande parte do tempo. Aproveito a porta entreaberta entre a cozinha dos avós e a mercearia. Gosto de comer a fatia fininha de fiambre acabado de cortar, ou a boleima de maçã acaba de chegar da padaria.  Outras vezes, fico a ouvir as conversas de gente que conheço pelo nome e que me conhece a mim. A mãe atende, bem disposta, sorridente, faz contas de cabeça, outras no papel, outras ainda na registadora, de que fiquei proibida de mexer.

Sábado, o dia mais frenético na mercearia. Perto da uma da tarde chega a carrinha do tendeiro. Vende sapatos no largo da igreja, no mercado semanal. A mãe mandou-lhe recado, de que estamos precisados de sapatos, melhor dizendo de sandalinhas para o verão. A mãe continua de lá para cá e de cá para lá, numa azáfama, fala noutra língua com um senhor espanhol,  Kiko, que aos sábados vem comprar pão,  manteiga e outras coisas, a este lado da fronteira. É um teatro, a mãe fala em castelhano com o senhor Kiko, ele responde sem conseguir pronunciar uma palavra em português. Vê-me, faz-me uma festa na cabeça, balbucia algo em portunhol. Não o entendo. Sorrio.

Naquele tempo, não sabia que as mães se cansam e muito menos que as mães morrem. Naquele tempo, faltavam muitos, muitos anos, para a mãe morrer.  Nem eu, nem ela, nem ninguém, imaginávamos esse dia, o último.

Preparo-me para experimentar sandálias. Um pé descalço e entusiasmado, o meu. Outro pé descalço, de profunda contrariedade, o do meu irmão. A mulher do tendeiro traz várias caixas com sandálias para experimentarmos.  A paciência da mãe é à prova de birras. A mulher do tendeiro de acento carregado, da zona de Nisa ou Alpalhão, abre e fecha as caixas, empurra o pé de um e depois do outro, na esperança de satisfazer a cliente. No final, feitas as compras, as duas mulheres entendem-se de valores e atenções.

Parou o tempo. A porta da mercearia fechou-se já passava da uma e meia da tarde. Sei que não. Sei que se fechou para sempre. A mercearia já não existe. Ouço, a campainha da bicicleta do Ti Xico Mota, o carteiro. Sei que já não entrega correio neste mundo. A menina das tranças, ainda lá vai. É ela que abre as portas de todos os dias que já terminaram. É ela que continua a visitar o Charlot do espelho da casa de banho, na casa dos avós maternos. É ela, que põe o tempo a correr para trás e para a frente, assim haja um lugar onde guardar o passado. Lá continuam as vozes que já não se podem escutar.  E a menina das traças sabe que o espelho é brincalhão como o Charlot, no espelho estão guardadas todas as idades que já teve. Lá, encontra sem esforço a criança pendurada no pescoço da sua mãe e não caí. São sintomas de vida, talvez tenha importância dizê-lo. O coração guia-me com sensibilidade e razão.

*** Nota: Este texto surgiu de uma mensagem que recebi de  uma amiga. Contava-me um episódio a respeito da minha infância. Não a vejo há décadas, serve este texto para lhe agradecer este pedacinho de memória e de história. Vou editá-lo, sem o seu consentimento e sem prejuízo da nossa amizade. Conta assim:

( E no adro da igreja os feirantes vendiam botas. A tarefa era convencer um menino em lágrimas de que as botas eram muito bonitas e ele precisava de umas. Os adultos não o convenceram. Mas uma menina, a irmã, quase que o acalmou com a seguinte frase “Não chores, não vamos comprar-te botas, vamos comprar-te uns sapatinhos subidinhos como os daquele senhor.” Parece que a sensibilidade já lá estava e a generosidade também. (…), um beijo para ti da Suzel.

N.B.

 

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