Senti-me atraída pela montra. Desci os três ou quatro degraus e entrei na pequena loja, num prédio antigo de Lisboa. Lá dentro, não cabia mais um botão, tantos eram os brinquedos antigos, as latas e latinhas, as bonecas de porcelana, de pano, de madeira, de borracha, olhos abertos que pareciam observar-me até à alma. Coleções de miniaturas, soldadinhos de chumbo, carros de todas as categorias, camiões, motas, aviões. Os meus olhos perdiam-se no registar. Quase me assusto, quando ouço, Bom dia. A voz vinha do meu lado esquerdo, por detrás da secretária, que não vira ao entrar. Do outro lado, um homem tão velho quanto as miniaturas bélicas que se perfilavam sobre a secretária, olhava-me com ar de espera, a luz da montra a incidir nos cabelos brancos, excecionalmente fartos, olhos minguados, simpáticos e expectantes sobre mim. Não respondi de imediato, presa que estava na figura de fato completo, castanho, gravata azul marinho sobre uma camisa branca. Sorri e devolvi o cumprimento. Perguntei se podia circular por entre as mesas, ver os brinquedos. Acenou positivamente com a mão, sorrindo sempre. Não travámos grande diálogo. A cada pergunta que lhe fazia, respondia invariável com a expressão “exatamente“. Nunca saiu do seu posto de vigia onde parecia restaurar pequenas peças. Seguia-me sem imperativos, atento aos meus movimentos e aos meus comentários. Se tivesse tempo, demorava-me ali perdidamente. Havia, naquele homem de fato castanho uma ironia inteligente, quando respondia: exatamente. Havia naquele espaço lotado do antigamente, a infância perdida de cada um.
Ali, nada esmorece. Ali, o inesquecível perdura. Encantei-me nas miniaturas de Don Quixote e Sancho Pança. Em casa dos meus avós víamos televisão espanhola e a grande obra de Cervantes era contada em desenhos animados. Eram os meus preferidos. Don Quixote, na sua espécie de loucura, procurava recriar o mundo, fazê-lo nascer de novo. Era isso que sentia ao revê-lo.
Quando saí da loja, interroguei-me se teriam sido as minhas perguntas que conduziram o velho colecionador à resposta repetida: exatamente. Havia uma imutabilidade simpática no velho e ao mesmo tempo uma vontade de se desembaraçar do cliente, sobretudo acrescento eu, se mostrasse interesse nalguma peça do espólio. Percebi isso, quando apreciei Don Quixote e Sancho Pança. Fosse como fosse, agradeço-lhe pela existência daquele quadrado, mais não era do que isso, a pequena loja. Um quadrado cheio de razões para entrar noutra dimensão temporal.
Exatamente.
N.B.
** imagem pinterest