Não é um texto, é um pretexto.

Foi redigido no final do segundo confinamento e ficou a descansar numa gaveta, até agora.

Entretanto, há uma estranheza, um receio de ficar para ali muito tempo a afagar palavras e pensamentos quase sempre em confronto entre o que é e o que podia ser, ou o que já não é e gostaria que fosse. O mundo descompensou e fui atrás. Adotei outros hábitos, anestesiou-se a amigdala, não sei!

Sou cidadã num mundo feito de muitos mundos, onde o meu e o teu também lá estão misturados nessa coisa indistinta que o ser humano modificou e continua a modificar, até à destruição. É por isso que volto ao tema da pandemia na tentativa de compreender as consequências na desordem do sistema, mais concretamente do aparelho reprodutor artístico, chamo-lhe assim.

Em modo de guião e em tom teatral segue o que então escrevi:

” Pouca cor, um apartamento, um lar, um cão. Uma mulher, cabelos loiros, olhos verdes ou talvez azuis, há que focar no essencial. Uma palavra nova sublinhada no guião, confinamento. Palavra que se gastaria simultaneamente na liberdade dos dias inteiros que todos resgatavam à memória. O cenário tinha poucos adereços: um relógio a marcar o tempo de forma desajustada do habitual. Uma hora já não se conta em sessenta minutos, o tempo é indefinido. Um sofá inconformado; umas quantas cadeiras preguiçosas; uma televisão rouca de tanto falar; uma estante cheia de livros serenos; música, sempre, jogos de tabuleiro incapazes de se cumprir; camas exaustas nos quartos e uma varanda a destacar-se como um promontório sobre a ação de esperar. A vida é despropositada. O convívio e o silêncio não coexistem. Há excesso de informação, o frigorífico repetidamente aberto, a mesa posta, os doces de alegria encapotada, a casa de tão usada, cansada, aborrecia. A mulher vai e volta da varanda como quem vai a outro mundo sem nunca lá chegar. A sinceridade salva, é nisso que acredita. Escreve sem a presunção de ter coisas para dizer, apenas a verdade do que se repete, como se da imutabilidade pudesse resultar uma paz interior. A certeza de que a vida é tanto o que não se pensou. Um dia a porta abre-se. A psicose da proximidade que fechou o mundo e cada um em si mesmo, termina. Os dias de varandar, a falta de objetivos concretos parece ter fim. Mas as coisas afetam-nos mesmo sem serem nossas. Qualquer coisa afetou o aparelho reprodutor artístico, criativo, biológico desta mulher. O órgão onde nascem as narrativas, a possibilidade de ligação entre elementos, pequenas minudências que se materializam em algo maior. E doí? Interroga-se quem lê. Doí. E tem cura? Talvez, diz ela, esperançosa na insistência, no exercício da escrita, no olear com imaginação.”

A história termina aqui, mas é fácil imaginá-la a ir e voltar da varanda como quem vai a outro mundo sem nunca lá chegar. Sem esforço adivinha-se, que às vezes, quando escreve, não reconhece a própria caligrafia, o pensamento parece gasto da palavra. Nesses dias, lê o que já escreveu à procura de si mesma.

NB

 

                                                                                  ** Imagem pinterest

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