“Só quero um céu pacífico e pão fresco.”–  ucraniana, de 87 anos. 26 de abril, 2022.

Este foi o desejo de uma senhora ucraniana, de 87 anos, à saída de um abrigo, numa localidade devastada pela guerra na Ucrânia. As palavras espelhavam a simplicidade e a resiliência que lhe iluminavam o rosto. Usava um gorro de lã, cor-de-rosa, salpicado de pequenas pérolas de fantasia que contrastavam com tudo o resto.  Sem uma blasfémia, sem lágrimas, apenas um desejo expresso com intensidade, a mesma com que se dispunha a continuar a sobreviver no abrigo escuro e húmido.

Não escrevo sobre a guerra, não saberia fazê-lo, nunca vivi tamanha catástrofe. Sei do luto, dos lutos, da ausência, do vazio, da dor que se prolonga e que o tempo não apaga. Da guerra nada sei, sou espetadora como a maioria. A minha experiência é feita de outros conflitos, onde nos confins do meu mundo o inimigo serei eu, moralmente ilesa à procura de culpados.

Não escrevo sobre a guerra, mas sinto urgência em expressar-me nestes tempos sombrios sobre a imposição bélica, o conflito armado que caracteriza o Homem, sempre. Para isso,  escolhi fragmentos do livro, A máquina de Joseph Walser, de Gonçalo M. Tavares. Através da história de Klober e Walser, os protagonistas,  encontrei a deformidade dos corpos e das mentes quando a vida é interrompida por uma guerra. A equação do medo sem fim, o mal, a morte a engolir cidades, aldeias, famílias. E depois a resistência, como gotas de chuva que teimam em penetrar no solo e fazer crescer o verde no meio do negro da fuselagem dos carros de combate, dos escombros dos prédios, das minas e dos campos esventrados.

Não é difícil reconhecer nesta história a anatomia de uma guerra, que bem pode ser esta que observamos ou outra que se avizinhe:

” A técnica de influenciar os homens assustando-os com o que ainda não conhecem é antiga (…) Fala-se de armamento militar que avança com apetite (…) Como se as armas tivessem estômago, como um organismo.. Uma espécie de saliva grotesca, metálica.”

Pergunto, como se pode voltar a ser humano no dia seguinte e no outro e mais à frente, mês e meio depois? Não há casa de banho, comida, sol de verão ou brisa fresca capaz de humanizar gente partida.

” O ódio é a grande marca do Homem.”  Essa é a opinião Klober na história. Fico a pensar.

” Há os protagonistas e as testemunhas. “ (na guerra)

” A guerra, quando aparecera, tornara-se rapidamente o tema único das conversas (…) E, além disso, com ela satisfazia-se essa necessidade básica do humano: a intensidade. “

“Porém, a excitação passou com a repetição- como acontece com qualquer livro ou filme que se leu ou viu várias vezes.  A guerra começou a entediar; primeiro os menos envolvidos (…) e depois (…) os que eram mais ambiciosos. E  quando o tédio chegou aos mais fortes, aos que mais podiam perder ou ganhar, eis que estava próximo o fim daquilo que se repetia há tempo excessivo. O fim da guerra aproxima-se.”

” Acima de tudo havia uma despensa que exibia 2 meses de existência em avanço, e que era um dos seus orgulhos, pois constituía a garantia de continuarem vivos (…) Como poderemos morrer enquanto temos comida? Como se além da falta de alimentos, não existisse outra causa para a morte humana.” ( a mulher de Walser assim pensava)

” Certas pessoas tinham memória do céu sem ruído, sem aviões. “

” E havia ainda a recordação de algo que desaparecera completamente – a preguiça. Que vais fazer? Aonde vais? A preguiça em tempo de guerra era, ou uma obscenidade – uma falta de resposta em relação aos que estavam à beira de ser mortos ou de matar (…) – ou então esse acto que não age – a preguiça – era a manifestação de loucura, de afastamento em relação à nova normalidade.”

Há um conflito que aflige um dos personagens, Walser. Devia manter-se neutro e assistir apenas à guerra ou tomar partido, refletir, ter opinião? É a pergunta que suponho poucos já se farão, quase todos termos opinião sobre a Guerra na Ucrânia. A opinião é um organismo que sofre mutações, que reage às técnicas de influenciar que os homens usam com mestria para assustar e fomentar ideologias políticas e religiosas. Manigâncias que misturam sentimentos nos que observam, entre a perda e o alívio, entre morrer e sobreviver, entre perder a identidade ou ser outro qualquer.

Imagine-se uma enciclopédia do mundo, pessoalmente procuraria saber o que se escreveria sobre Portugal, o meu país, a minha casa. Não imagino o que será uma enciclopédia do mundo sem Portugal, nação soberana. Consegues fazer esse exercício?

A guerra é um exercício de atrocidades pela força e pela violência entre povos  ou etnias com o objetivo de proteger os próprios interesses. A narrativa de Gonçalo M. Tavares é uma cartilha da guerra. Pode ser lida através do livro, A máquina de Joseph Walser ou numa televisão perto de ti.

NB

 

 

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