Meu amigo,
Venho dizer-te da importância dos mapas. Mostrei-te um poema, de um poeta que descobri na pandemia, lembraste? Os mapas, as cartografias começaram a interessar-me. Num domingo de manhã visitei o Museu da Marinha. Deslumbrei-me com a beleza dos pormenores nos painéis cartográficos que enchem algumas das paredes do museu. Lugares de uma geografia antiga, onde se veem gravuras, pormenores, vivências, a fauna e a flora e tudo o que possas adivinhar. Parei ali, entre Goa e Terras de Vera Cruz. O deslumbre no olhar.
Conto-te de outros mapas, os que registam amizades, o primeiro amor, o primeiro dia do mundo sem a presença de quem nos morreu. Outras cartografias, por certo, e não menos importantes para mim. Tomei esta tarefa de registar à escala os caminhos longos que percorri e os menores, as estações de descanso, os miradouros. Assinalo lugares de permanência, no Alentejo, em Lisboa. Há insetos, animais, plantas, flores e formações geológicas e até ruínas, na cartografia de mim. Os pirilampos, lembraste? Havia muitos nas noites quentes do Alentejo. Desenhei-os e lá permanecem a brilhar, ali não lhes é negada a existência.
A cartografia é como a literatura, não deixa escapar nada do que vives ou viveste.
Sabes, quando passeio na minha aldeia envelhecida, já não conheço muita gente e isso acontece-me noutros lugares. É o tempo, impiedoso. Meu amigo, estou a esvair-me em palavras e argumentos, para te falar de mapas, incapaz da sinopse curta, colorida, gráfica, física e doce da cartografia a que te convido a converter, agora que estás mais quieto, mais do lado de dentro que de fora.
Já me estás a compreender? Há dias em que me pergunto para onde foi o dia inteiro. Às vezes vou mais longe, lá atrás. Nesses momentos, observo o mapa e encontro respostas, como a linha de comboio a que faltam travessas para se poder voltar a circular. Um dia alguém recuperará esse caminho de ferro.
Na essência continuo a ser esta, a que tenta ser sempre perto. Concordarás comigo, a época do Covid não é boa para fazer quase nada, especialmente adoecer ou entristecer. E vai daí, deu-me para isto. Desenhar a minha cartografia para fugir à psicose da proximidade que nos fechou em casa, em nós.
Li algures que o contentamento não é o mesmo que a felicidade. Estou tentada a acreditar que é melhor. O contentamento é um bom sintoma de vida, meu amigo.
Antes de terminar falo-te de um personagem que tenho em mãos, uma história que venho escrevendo. Chama-se Araminhos, uma alcunha que por si só, é já uma história. O rapaz é dado a invenções, habilidoso, materializa ideias em peças de marceneiro e ferreiro. Um dia, por assim dizer, apaixonou-se pela Isa, filha da Júlia da Repartição de Finanças. Havia de lhe enviar presentes feitos com as próprias mãos, com mapas de lugares, onde a há de levar. Presentes originais como ele mesmo, António Maria Policarpo, conhecido de todos por Araminhos.
O futuro é o que excede a imaginação, meu amigo. Desejo-te imaginação, desejo-te futuro.
Um abraço.
P.S. Estou a desenhar uma rosa dos ventos, de onde germinam só ventos favoráveis, não aceito outros. E, esqueci-me de te contar, que assinalei com andorinhas todas as casas onde vivi.
N.B.

*** Foto Pinterest, Ed Fairburn.