Parte IV
Volto à taberna das minhas saudades. A taberna do Rascalho, do senhor João Batista, do meu pai. Do outro lado do balcão faço como vejo fazer. Enxaguo os copos do vinho, do traçadinho, do bagaço, na pia de pedra e ponho-os a escorrer. Perfilam-se pratos de petiscos variados sobre a pedra mármore do balcão, cabeça de xara, orelha de porco, pipis, toucinho frito, jaquinzinhos fritos, alinhados num palito, tremoços, amendoins. Aqui come-se bem, ou não fosse o dono um extraordinário cozinheiro, um negociante, um grande taberneiro. Os homens fumam, conversam e petiscam, talvez não por esta ordem. Nas prateleiras há bebidas e animais embalsamados, que olham com olhar vítreo os que lá estão. E há loiça das Caldas noutra prateleira atrás do balcão, que serve para surpreender gente nova, numa espécie de batismo, entre homens. Das paredes pendem pratos com aforismos alusivos ao vinho, à comida, ao freguês e ao calote. Serve-se imperial e na taberna do meu pai exibe-se um diploma de, Melhor Tirador de Imperial, atribuído pela cerveja Sagres. O chão tem de ser varrido várias vezes ao dia, há palitos, guardanapos, cascas de amendoins, de tremoços, beatas. De manhã à noite, há sempre gente. Quando está mais sossegado, ouvem-se as vozes das mulheres na mercearia contígua ao café. Os estabelecimentos têm ligação e até à data de encerramento da taberna, a minha mãe andava num corrupio para dar conta do recado.


Vou-me à mercearia da menina Glória, a minha mãe. É como ver a minha vida de frente, quase se me afigura poder considerar novas opções. As prateleiras estão repletas até mais não. Desde produtos alimentares, a artigos de higiene, drogaria e muita miudeza para a qual não encontro classificação. Ao centro, cestos rotativos servem de expositores a bolos, bolachas e outros doces. A caixa registadora está à entrada, numa espécie de ilha, permitindo aos clientes formarem, facilmente fila. Tudo o que imagino existe neste lugar. E tudo começa cedo com a chegada do pão e dos bolos acabados de cozer e o leite do dia, da Serraleite. Todos têm pressa. A menina Glória conhece as demandas e sabe criar entendimento, com a mesma habilidade com que trava quem ali se interessa mais pela vida alheia. Nesta loja que guardo no lugar do coração, conversa-se sem fazer vincos. A freguesia sabe-o bem e prefere o lugar. As arcas frigorificas estão cheias de peixe e de carne, tudo embalado e congelado, que as novas regras do ramo alimentar querem abolir o avulso. Tempos houve em que os animais eram mortos, a carne desmanchada em casa e os enchidos eram do nosso fumeiro. Lembro-me, até de se vender manteiga dos Açores, a peso. Aconteceram muitas mudanças nas leis do retalho e do comércio. Mantém-se a hora do lanche na escola primária. Os garotos correm a comprar boleimas, chocolates Regina, bombocas e gelados no Verão.
A mercearia é uma casa com tradição. Foi pertença dos meus avós, Felicidade e Manuel Barradas. Um lugar de compras, de conversa, de confissão e amparo. Nas horas mortas há sempre quem chegue para se queixar dos joelhos, das varizes, do excesso de álcool do filho, do marido. E ali, como numa espécie de consultório ou de confessionário uma mulher-menina, de olhos azuis, dócil, calma, sensata, é capaz de ouvir e guardar de todos um pouco. Ensinou-me tudo e ainda assim, agora que a observo de fora, percebo porque há gestos que se apagam no tempo e outros que se multiplicam. Estão presentes na dialética que estabelece com quem ali entra. São relações de vizinhança, de amizade, de estima que se sobrepõem, muitas vezes, ao lado material e financeiro. Agora mesmo, abre o livro do fiado, onde regista parcela a parcela as contas de A e B, nem sempre saldadas no final de cada mês. No vidro da porta de entrada, repõe a fita-cola que fixa o horário largamente ultrapassado. Toda a gente sabe que pode bater à porta, que a menina Glória desenrasca o que fizer falta. E não quero esquecer-me dos dias especiais, que enchem a loja de mulheres, para levantar as encomendas. Às quintas chegam os queijos, de Nisa, de Monforte, de Castelo Branco. Às sextas é a pastelaria fina, da panificadora, confecionados pela família Maridalho. E todos os dias o carteiro, de bicicleta ou lambreta recolhe o correio. É o Ti Chico Mota, com o cigarro de enrolar atrás da orelha, e a chave na mão para abrir a caixa vermelha do correio, fixa na parede da mercearia da minha mãe. Têm sempre dois dedos de conversa, a anteceder a entrega da correspondência. O carteiro segue, porta a porta, carregando a sacola grande de cabedal.
Há uma mercearia na minha vida tão fácil de encontrar. Fica na Avenida 25 de Abril, nº 30. Deus distraiu-se e nada disto já existe, exceto na memória coletiva das gentes, nas linhas que constroem esta narrativa, em mim, na minha família. As memórias são bichinhos carpinteiros que agitam as lembranças e provocam a saudade. E a saudade é um sentimento avassalador, que só se experimenta quando se perde, quando algo ou alguém desaparece. Então, tudo nos faz falta, do bom ao mau, ao péssimo. Porque é preciso perder para valorizar.
O passeio terminou. Mais não fiz do que olhar e ouvir. Como escreveu Nuno Camarneiro, no romance Debaixo de Algum Céu, “ Uma história são pessoas num lugar por algum tempo.” Assim aconteceu e acontece em Santo António. E não há tempo certo, há tempo vivido. Cada qual vive o seu. Daí nascem as vivências e as memórias.


Não sei o que me contariam os moradores de hoje, acerca da Avenida. Arrisco dizer, que partilham a minha apreensão, a minha tristeza e descontentamento diante das inúmeras portas fechadas. Tudo tão contrário ao que já foi. Cada casa, cada homem, cada mulher que desaparece é património que se perde. É uma aldeia que mirra, é futuro que se adia.
O progresso e a continuidade não se fazem sem pessoas e as pessoas agarram-se à alavanca do progresso. Assim se fixam demograficamente.
Não quero desabituar-me de frequentar a Avenida 25 de Abril. Por isso, não largo mão dos mapas da minha infância e da minha adolescência. Alimento memórias. Procuro a materialidade das coisas, as sensações, os cheiros, os sons, as imagens, as pessoas, a cada frase. Numa espécie de demanda aventurosa, não isenta de equívocos, que convida o leitor a percorrer a Avenida, rumo ao que não existe. Amanhã, ao nascer do dia, poderei sentir a tentação de modificar estas páginas, de tão habitadas que são de passado. Sei que não.
Regresso a onde construi outra vida. O sol cai, subo a serra de Marvão. Santo António das Areias mergulha nas luzes amarelas dos candeeiros, parece um pequeno braseiro. Levo os olhos cansados e a cabeça não sossega de pensar.
O passado revisitado. E o presente, que futuro antecipa?
Acredito que até na fragilidade há força. Acredito nas pessoas com valores. Acredito nas raízes. No poder da memória coletiva. Acredito na palavra dada.
Natália Batista
*** Fotografias: no colo do meu pai à porta da taberna; com o meu avô Barradas ao balcão; o meu pai a aprender a tirar imperiais; a minha filha na mercearia da minha mãe 2004; o carteiro Xico Mota; a menina Glória, minha mãe; marchas populares na Avenida; Cortejo de oferendas na Avenida com o Rancho Folclórico.
** As fotografias são do Professor Jorge de Oliveira; do Senhor Manuel Dias, da Mila Mena e minhas. A revista pode ser adquirida no Turismo de Marvão e nos serviços da Câmara Municipal.