Parte III

Definitivamente, são horas de almoço. A senhora Francisca fecha as portadas da mais antiga retrosaria da terra. O velho soalho encerado range ao andar do marido, o senhor Batista, que calça uma bota de salto compensado, que lhe dá desenvoltura. São tempos de remendar, de poupar, de aproveitar, de fazer, de costurar. As linhas de crochet vendem-se tão bem e não há moça que não cuide do enxoval. As duas retrosarias têm clientes que baste.
À procura de atenção, o cão do senhor Sequeira deita o focinho fora do portão. A casa enorme e vistosa pertence ao homem mais rico do concelho, dono de fábricas e herdades, filho do senhor João Nunes Sequeira o maior dinamizador e empregador do concelho de Marvão.
Uns rapazes regressam do campo da bola, falam alto sobre jogadores e campeonatos. Entram no Grupo Desportivo e Recreativo, a sala de espetáculos de Santo António das Areias. A sala é ampla, tem um palco e camarotes de onde se assiste ao cinema ambulante, aos teatrinhos das crianças, aos bailes abrilhantados pelo grupo musical, Part-time. Na cave, sem querer brincar aos pleonasmos, fica a discoteca, A Cave. As matinées e as noites de festa trazem gente de todo o lado. Penso nisto tudo, como se o tempo soluçasse. Tínhamos tanto a que nos agarrar, até um pequeno jardim e um café que dá pelo nome moderno de pastelaria. Nada do que vejo, dá mostras de fim.

No largo da igreja, aos sábados, as tendas dos feirantes ocupam toda a calçada. Vêem-se marcas das estacas de ferro, que suportam as tendas, protegendo os tendeiros e a mercadoria, do sol e da chuva. O povo em revoada compra o retalho de horta, as leguminosas secas, os enchidos, o toucinho, a roupa interior, meias grossas, ceroulas, botas cardadas e uma pinga de vinho. Na verdade, isso acontece já ao balcão do Café Mendes. Os mais velhos têm ponto de encontro neste lugar. “Os Pacates” ou Grupo dos Bonés, do qual o meu avô, Manuel Barradas, faz parte, jogam aqui às cartas. É o único café com telefone público. É, também, ponto de entrega de encomendas e apeadeiro da Rodoviária Nacional e da Rede de Expressos. A esta distância não sei precisar quanto tempo assim foi, nem como começou. Tal como não recordo, a última estaca presa na calçada do Largo da Igreja.




O Largo é prazenteiro. A igreja ao centro, o casario colorido e as árvores frondosas dão sombra. Conta-se, que foi por aqui que D. João da Câmara se inspirou para escrever, Os Velhos.
Passa das três, o comércio reabre. A drogaria do senhor Contente, do Balecas, do Ti Gavancha, como seja mais simpático recordá-lo, abre as portas. Encontro-o a olhar uma prateleira como quem confere lâmpadas, tintas, lixas, petróleo, gesso em pó ou outra coisa qualquer. Reconhece-me por detrás dos óculos e de imediato pede-me que diga ao Ti Barradas, meu avô, que venha buscar as cautelas. E nisto, esboça um enorme sorriso, que este homem de estatura pequena e cintura avantajada, é feito de boa disposição, quer conte pregos ou venda jogo. Noutro lugar do largo, a irmã Arminda, de seu nome, também tem casa aberta. Vende feijão, grão, milho, tudo avulso. E vende vassouras e vassourinhas, esfregões e detergentes. No patamar abaixo, mais uma mercearia, a da prima Dionísia Canhota. Cheira a queijos à entrada. Estão junto ao balcão. Nos dias fixos de venda dos bolos da doceira da terra, a senhora Antónia dos Aires, o cheiro é mais agradável. Mas tudo coabita sem restrição. Também no largo fica a farmácia e a barbearia. Uma bênção, o posto farmacêutico, tão necessário à terra com tantos habitantes. A barbearia do mestre António Patalou, por detrás da igreja, tem sempre alguém na cadeira do barbeiro. Dá gosto vê-lo, ao mestre Patalou, a manejar a navalha, seja a aparar umas suíças, a fazer uma barba ou um corte de cabelo.


Há mais lojas nesta aldeia e neste passeio excecional. Quem sobe, em direção à Praça de Touros, encontra o café e a mercearia do senhor Bilbil e da menina Maria, sua esposa. E atravessando a rua, frente a frente, é a loja da menina Florinda e do senhor Zé Boto. É mais que uma mercearia, vende loiças, vidros, bibelots, revistas. É, também, um posto de distribuição de tabaco. Os Correios e o Posto da Guarda Fiscal são ali contíguos, enquadrados num pequeno largo ajardinado.

Há quem diga que o Amor, mesmo no fim da vida, é o melhor que se pode encontrar. Por isso, deixei a taberna e a mercearia dos meus pais para o fim deste passeio, pela Avenida 25 de Abril. Talvez a vida seja uma avenida comprida, que é preciso conhecer como nesta narrativa.
(continua na IV parte)
N.B.
*** As fotografias: Grupo de Jovens com a bandeira do Grupo Recreativo e Desportivo de Santo António das Areias (anos 70); duas fotografias do mercado no largo da igreja, o Largo da igreja atualmente, a casa que pertenceu ao senhor João Nunes Sequeira; a drogaria do senhor Gavancha, também conhecido por Balecas; o café Mendes e o seu proprietário, senhor Joaquim Mendes; a mercearia da menina Maria. As fotografias foram gentilmente cedidas para documentação e ilustração da Revista Cultural de Marvão no número especial de 2021, pelo senhor Manuel Dias, o Professor Jorge de Oliveira, Mila Mena, outras contributo de famílias e algumas tiradas por mim.
*Na Revista do Município há um conjunto vasto de fotografias que os interessados poderão encontrar.