
Parte II
A Avenida enche-se de transeuntes na azáfama dos dias. Da Telescola saí muita miudagem. Vestem bata preta e no peito a identificação bordada a verde e ouvem-se os gaiatos no pátio da Escola Primária. São da terra os professores, o médico, a enfermeira, o carteiro e o padre. Por isso, se dizia com orgulho que a freguesia de Santo António das Areias se bastava a si própria. Até porque, para um remedeio, um pequeno luxo ou gulodice, bastava passar a fronteira. Num salto está-se na Fontanheira ou em Valência de Alcântara.
Neste cruzar de povo, vejo alguns que entram na Casa do Povo, onde o Dr. Machado se desdobra entre a prática da clínica geral e a medicina dentária. A menina Felícia faz as marcações e se falta houver dá injeções, porque volta não volta estas gentes enchem-se de anginas e outras maleitas.

Em meia dúzia de metros quadrados, não esqueço que no infortúnio há na aldeia quem venda urnas funerárias. A carpintaria do Mestre Joaquim Tendeiro, na Ladeira do Tragazal, quem desce a Rua da Padaria, presta esse serviço. Afasto daí o pensamento, para me desviar do Raúl, a quem Deus fez diferente. Cumpre a tarefa de empurrar um carro de mão, como se a deficiência perdesse expressão neste constante empurrar. Vai Raul, vai. A pé, sempre a pé, a caminho da Beirã.
A dona Idelmira varre a porta do Centro de Lavores. Não tarda, chega quem vem aprender a fazer bainhas abertas, a cerzir, a coser, a bordar e lá para a tarde vêm os meninos da escola. Aqui fazem os trabalhos de casa, treinam a caligrafia, aprendem a ser obedientes e educados. No Alentejo havia esta “instituição” de caráter particular, com laivos de vizinhança e detentora de plenos poderes punitivos, sempre que os gaiatos saiam da linha. A dona Idelmira representa essa instituição, a Mestra. E não se estabeleça comparação com os ATL´S. “Salve seja”, imagino-a a exclamar.
Paredes meias com o Centro há outra oficina, onde se batem chapas e se reparam as entranhas dos camiões das fábricas. O Mestre Carlos Mecânico, de profissão e alcunha, veste um fato de macaco da cor dos borrões da tinta. Do bolso pende-lhe um esfregão de desperdício. Fala com o bigode e as sobrancelhas fartas. O Carlos Mecânico e o João Grande são os homens de maior estatura da Avenida.
A mente é ardilosa, quando olho a oficina segunda vez, vejo apenas um portão grande, verde, fechado. Há vozes que me encorajam, soam do lado do Grémio da Lavoura. São os homens à conversa. O Grémio é um grande edifício. No primeiro piso fica a tesouraria. No rés-do-chão cheira a ração, a sulfatos, misturados com cheiros vários de materiais para construção. Só lá trabalham homens, o senhor Carlos Alberto, o senhor João Mota e o senhor Manuel, por todos conhecido por Manuel do Grémio. No pátio anexo há alfaias e outras máquinas agrícolas. A freguesia orgulha-se de ter esta “mercearia da lavoura e dos pedreiros”.
Vou a meio da Avenida, encantada com os estabelecimentos comerciais, com quem compra e com quem vende. Gente simples e tesa de personalidade. “Muito gosta vossemecê de Santo Antonhe”, diz alguém dentro de portas para um homem que passa com o burro à mão.
Há um desenvolvimento latente em Santo António das Areias. Posto médico, médico residente, correios, carteiro, escola primária, telescola, indústria, comércio, centro de lavores, praça de touros, Sociedade Recreativa, banda filarmónica, rancho folclórico, teatro amador, equipa de futebol, discoteca, salão de baile, tanto que receio falhar na enumeração. Arrumo as ideias, respiro passado e sigo.
Na primeira curva da Avenida, são duas as montras que emolduram a entrada da retrosaria da menina Júlia e do senhor Manuel, conhecido por Pierino. Vejo-a, a menina Júlia, a vestir um casaco azul, de malha, ao manequim. As montras irrepreensíveis mostram o muito que a loja oferece, atoalhados de algodão com monogramas bordados, lençóis de linho, batas, aventais, collants de vidro e peúgas de homem, roupa de bebé e sei lá que mais. Lá dentro, as prateleiras enchem-se de fibras naturais, algodão e linho. Há rolos de bombazine, terylene, cambraia, cetim, fazenda de algodão, axadrezada, com lista fina ou lisa. E depois, tudo isto exige fechos, colchetes, botões, linhas. Ao balcão, atenciosos, marido e mulher medem tecidos. A fita métrica sempre pendurada ao pescoço, tal qual o médico com o estetoscópio. Por vezes, servem-se de um metro de madeira e dá gosto ver como rasgam certeiro o cetim para forrar saias. Duas senhoras saem da loja, são quase horas de almoço. Identifico a voz da menina Sebastiana, a nossa soprano no coro da igreja. Saí de braço dado com a mana, a menina Maria da Alegria. Septuagenárias que são, no trato gentil dos seus pares, ficarão para todo o sempre, meninas. Descem agora a Avenida em direção contrária, à minha. Do lado oposto da rua, o senhor João do Bento acautela as tintas e os diluentes do sol do meio-dia que entra pela vitrine.

Daqui para a frente, posso dizer sem faltar à verdade que a Avenida é segura, literalmente segura. O Posto da Guarda Nacional Republicana, com a frontaria pintada de branco e amarelo exibe no mastro a bandeira nacional. A varanda preenche-se de vasos com sardinheiras e hortenses, regadas com esmero pelos guardas. Vivem lá, dormem lá e todos nos sentimos seguros. O posto fronteiriço e a alfândega na estação de comboios de Beirã deram a Santo António das Areias novas famílias, que por aqui fixaram residência.
Parece tanto o que já contei nestes poucos metros de alcatrão. Lá adiante, na segunda curva da Avenida, aparece o Zé Maminhas. Vem bamboleando-se numa motricidade comprometida. Um dos braços e a respetiva mão não lhe obedecem, mas a boina vai firme na cabeça.
(continua na parte III)
N.B.


*** As fotografias: Santo António das Areias visto de Marvão; Casa do Povo anos 70, Telescola; Retrosaria do senhor Pierino; Zé Maminhas; a procissão do padroeiro da terra, S. Marcos. As fotografias foram gentilmente cedidas para documentação e ilustração da Revista Cultural de Marvão no número especial de 2021, pelo senhor Manuel Dias e pelo Professor Jorge de Oliveira.
3 Comments
O texto está tão vivo que, por momentos, tive a sensação de estar a caminhar na Avenida..
Que bom foi recordar, até me emocionei. Obrigada.
Eu é que agradeço o comentário. Beijinhos, Olinda.