( Este Texto foi publicado na Revista Cultural de Marvão, Número Especial de 2021, dedicado às Memórias das Freguesias de Santo António das Areias e Beirã, com a Coordenação do Professor Doutor Jorge de Oliveira. Pela sua extensão e porque me parece oportuno documentá-lo com algumas das imagens que o enriquecem na Revista, será segmentado em várias partes.)
Parte I

Dou-lhe a minha palavra, dou-te a minha palavra e cada frase que escrevo é isto mesmo. A minha palavra. E a memória reinventada em frases que constroem uma história.
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Regresso a Santo António das Areias pela noite. Poderia ser mais uma entre tantas viagens, mas desta vez o momento é excecional, tem um sabor delicodoce, um arrepio na pele que antecipa reencontros. É a bondade da memória capaz de ultrapassar entraves temporais.
Passo a aldeia de Portagem, aspiro o ar fresco sempre dois a três graus celsius abaixo do normal, em outras partes do concelho de Marvão. Um microclima que tanto apraz no calor tórrido do Verão. Com a mão fora do carro, toco o fresco, agarro a brisa enquanto penso para comigo, que pela manhã ressuscitarão os Nossos, os que outrora abriam as portas das tabernas, dos cafés, das mercearias, das retrosarias, da casa de lavores, da barbearia, dos talhos, da drogaria e outros espaços comerciais. Revisitarei a vida social e económica da aldeia mais próspera do concelho.
O alcatrão serpenteia a encosta. A noite escura destaca a iluminação amarelada da escarpa, do castelo, da vila murada. Uma espécie de presépio suspenso que atraí o visitante no escuro da noite. Mas o que mais me fascina está mais acima, ainda mais longe, no céu cintilante e negro do Alentejo. Sou capaz de ficar horas esquecidas a olhar, a observar este céu de brilhos e purpurinas, que sem engano conduz os peregrinos até Santiago de Compostela. Uma cartografia feita de estrelas e nublosas, um caminho que se faz a par do céu noturno.
Sirvo-me da falta de luz para disfrutar da paisagem, agora que desço a serra. Chego à Fonte da Celorica, onde paro para uma água fresca. Lá em baixo, a perder de vista brilham as luzes dos Homens, a demografia semeada entre planaltos e serras.
Santo António das Areias parece um braseiro feito de luzes amarelas. Os meus olhos não perguntam nada, apenas percorrem o vale escuro, onde se confunde o brilho das estrelas e das luzes. Já foram brancas as luzes, agora entornam um tom amarelo bacento dos candeeiros. Sigo o contorno da aldeia através da iluminação das ruas. É grande o povoado.
Desço para Santo António, pela janela aberta ouço o ladrar dos cães. São cães de rua, daqueles que vivem numa casota junto à casa dos donos e ladram quando ficam desassossegados, para sossego de quem os tem. Os cães são uma das memórias deste lugar. Os cães sem dono, que eram de todos, que se passeavam por aqui e por ali e sabiam sempre a onde regressar.
A aldeia parece deserta, sem dar mostras de viva alma. É tarde, impõe-se o descanso. O dia amanhecerá numa cronologia desfasada. Amanhã, muitos abrirão portas há muito fechadas, falarão com a voz há muito tempo silenciada. O dia será maior, porque é necessário que o seja para que tudo aconteça. A realidade e a ficção de mãos dadas. Uma mistura de atitude e improviso do saber fazer. Cabe-me o papel de cicerone, de narrador fazendo rimar as coisas, estabelecendo ligações propositadas, numa espécie de narrativa cinematográfica para que outros a leiam.
Fez-se dia. Espreito a Avenida 25 de Abril pelos buracos da persiana. Passam carros, ouço uma motorizada. O ruído estridente lembra velhos tempos, quando por aqui circulavam muitas motorizadas. Os homens exibiam patilhas e bigode e as mulheres lenço a cobrir a cabeça. Era um frenesim, quando a sirene das fábricas se fazia ouvir, anunciando a hora de almoço. Saiam como enxames da Nunes Sequeira, da Fábrica de Conservas, da Fábrica do Calçado, a Celtex. A pé, de bicicleta, de motorizada, poucos tinham carro. Elas apressadas, com as mãos maltratadas da salmoura, da costura, da borracha, do trabalho. Corriam a dar o almoço à família. Eles cumpridores tinham ainda tempo para um cigarro e um café com cheirinho.
A Avenida 25 de Abril é a coluna vertebral da aldeia, de onde foram germinando terminais nervosos, diga-se aqui numa linguagem mais prosaica, bairros sociais que aglomeraram famílias e escolas, fomentando o crescimento populacional.
Teria os meus seis anos quando, uma espécie de limpeza gentílica varreu o país, no pós 25 de Abril de 1974. E a Avenida Marechal Carmona, assim se chamava, é rebatizada com o nome que hoje lhe conhecemos. Foi um momento que me causou alguma confusão. Como era possível, alguém mudar o nome da minha avenida? Como era possível que não mudando de casa, a morada se alterasse? Fez-me temer que a partir dali tivessem a ousadia de mudar tudo. A escola pareceu-me um lugar de onde nunca sairia, se tudo tivesse de ser inventado novamente.
Preparei-me mentalmente para ir ao encontro dos homens e mulheres que por essa hora estavam já nos seus postos de trabalho, nos estabelecimentos comerciais que marcam o pulsar da população, o barómetro económico da freguesia. Saio à rua decidida a percorrer a Avenida.
Dou os bons dias a quem está à porta da oficina Delgado ou devo dizer a oficina do meu amigo Arlindo Andrade? É aqui, que a narrativa se confunde e as referências temporais e espaciais se misturam. Homens de hoje coincidem na Avenida com outros de um tempo conhecido e tornam menos monótona a realidade. Uma motorizada virada ao contrário é cirurgicamente vistoriada à procura da anomalia que ali a levou. Na porta ao lado, há um macho preso à argola de ferro na parede, do Ti João Ferrador. O animal mantém-se calmo, enquanto lhe apara os cascos. Conversamos. Fico a ver como põe as ferraduras nas patas dianteiras do macho, as mãos grandes, os dedos grossos, tiram e põem as ferramentas do avental de cabedal, já gasto. Despeço-me, passo à porta da mercearia e do café dos meus pais, deixo esta visita para o fim. Entro no Café Avenida e tenho de chamar pelo senhor Saúl que está ocupado a dispor as carnes na vitrina do talho, na porta contígua ao café. São dois os talhos na aldeia, este e o da senhora Encarnação, frente à Pensão Ribeiro. Há fregueses para todos e sempre se distribuem as contas a saldar só no final do mês. O Café Avenida é acolhedor, espaçoso e central. Aqui acodem todos, sobretudo os homens entre as pausas fabris e os mais velhos para jogar às cartas. As mulheres vão menos, quando vão aproveitam para espreitar a televisão e conversar com a menina Felícia, a mulher do senhor Saúl. Há petiscos, frango assado e nas salas da cave servem-se refeições. O vinho vendido ao copo, sabe bem ao balcão. E fuma-se, fuma-se muito.
Sigo pela Avenida, a montra da Casa Casimiro tem novos eletrodomésticos, um frigorífico de duas portas, uma varinha mágica e um ferro de engomar. Um letreiro indica que é possível pagar a prestações. Lá dentro, há ainda alguns móveis de quarto e de sala que despertam olhares.
As bombas de gasolina da fábrica Nunes Sequeira têm fila: um Fiat 600 verde, uma Dyane 2CV branca e a furgoneta do pão, da Padaria do senhor Manuel Filipe. São as únicas bombas no concelho. O Ti Manuel, desde que lá trabalha, foi renomeado de Ti Manuel da Gasolina. Estatura baixa, calvo, protege a cabeça com um chapéu cinzento, de palhinha. O mesmo que simpaticamente levanta, quando saúda quem passa. A fábrica tem vida própria, como uma colmeia. No armazém empacotam-se especiarias em papel pardo e cheira a cominhos. Ouve-se o som seco dos carimbos no escritório, no andar de cima, onde através de um pequeno alçapão içam e descem pequenos embrulhos, livros de acento e tudo o que couber e for preciso. Nos pisos superiores as mulheres trabalham as amêndoas, muito antes de ser Páscoa. O barulho das amêndoas nas cubas de cobre é ensurdecedor. Comeriam amêndoas, as pessoas se o soubessem? Se soubesse como ferem os ouvidos, enquanto adoçam o paladar? A fábrica é um mundo, para o qual não tenho tempo.
Lá fora, uma mistura de cheiros a especiarias, a gasolina, a pão e a bifanas. Na rua da Padaria, ali ao lado, cozem-se fornadas de pão e tabuleiros de boleimas. A senhora Mónica, pequenina, redondinha, de cabelo apanhado num poupo com ganchos de tartaruga, atende ao balcão. O senhor João Grande, o taberneiro mais popular da Avenida é um dos fregueses. Emigrado em França, regressa e abre a taberna mais sui generis da aldeia, enquanto a menina Emília Ribeiro, a esposa, tem a cargo a única pensão de Santo António das Areias, a Pensão Ribeiro. Funciona no primeiro andar, por cima da taberna. Os clientes vão à procura dos petiscos, da boa disposição e o linguajar do proprietário, sem receio do calão. É a estatura acima da média, num concelho em que as alcunhas são tradição, que dão ao senhor João Amador, a alcunha de João Grande. Acena-me com a mão, “ Como tás nina?”. Retribuo. Não pode ver nos meus olhos o futuro que lhe modificou a taberna e a pensão. Um dia, a taberna abriu remodelada de café, O Poejo. Tempos depois fez-se hotel com o mesmo nome perfumado. E à data desta narrativa é uma das muitas portas fechadas.
N.B.
(Continua – parte II)
As fotos que se seguem são por ordem: Avenida 25 de Abril anos 70 e anos anos 90; dois momentos distintos de convívio, no café Avenida; vista panorâmica da aldeia de Santo António das Areias e da Vila de Marvão. As fotografias são do acervo pessoal de várias pessoas: Dr. Jorge de Oliveira, da Mila Mena e minhas. As fotografias panorâmicas têm a marca d´água dos autores.






