Eram todos bons rapazes. A frase vai buscar de ouvido o título de um filme na sua tradução para português e serve à descrição exemplar de um dia também ele exemplar, o dia do meu casamento. Luz de Verão, sol aceso até ao cair da noite, tarde, bem tarde. E nos fotogramas captados há felicidade luminosa, abraços doces, piadas frescas, música variada, passos provocando o caminho. Esta fotografia guardava a juventude num envelope amarelecido. Tudo bons rapazes, amigos, jovens deslumbrados de sonhos, desejosos de os concretizar. Lembro-me da direção que seguíamos: a do almoço, a da festa, a da vida.
É a única fotografia que capta os bons rapazes, sempre os recordarei assim. Minutos mais à frente, sofreram um acidente de viação grave e um deles fica tetraplégico, o Henrique. Passaram muitos anos, o que em nada apaga este acontecimento trágico, num dia memorável como era aquele para mim. A verdade, é que a vida de cada um de nós mudou naquele dia para sempre e não é um cliché.
Encontrei a fotografia dentro de um envelope endereçado ao Henrique. Nunca lhe a entreguei. Foi a última vez que caminhámos todos juntos na direção de um futuro desconhecido. Estávamos em 1996. Hoje, chegada a este futuro tão distante do Verão de 96, faz-me sentido escrever sobre isto. Infelizmente, o Henrique partiu recentemente, de forma súbita. Todas as vezes que estivemos juntos, falámos o que queríamos falar e guardámos o que queríamos guardar. Só nunca lhe entreguei a fotografia, convencida estava que o poderia magoar. Foi um engano esquecido numa gaveta.
Os sete seguimos viagem por geografias distintas e instalou-se uma mudez interior, porque estas coisas não são fáceis, porque o intervalo é uma necessidade que tem tempos diferentes e para alguns pode ser uma vida. Hoje perdi a noção do tempo a olhar para a fotografia. Tenho para mim que há lembranças à espera de um dia para voltar à vida, numa narrativa que seja. Lá fora os pássaros destemidos ensaiam voos e pousam onde lhes apetece. Não tarda o dia vai embora.
Ainda bem que nos encontrámos, eu e esta fotografia. Nela somos jovens e amigos para sempre.
N.B
**Da direita para a esquerda: Henrique, Carlos, Amílcar, o noivo Victor, eu, Luís e o Jorge.
4 Comments
Mais uma postagem com um texto tão bonito quanto triste. Um verdadeiro hino à verdadeira amizade que, mesmo aparentando uma certa letargia, dela desperta com um simples nada ou será um tudo?
A fotografia deste texto responde à sua pergunta. Gostei muito de ter encontrado esta fotografia que me trouxe a esta narrativa muito especial. 🙂
Lindo e emocionante texto ,que nos lembra como tudo pode mudar num segundo, neste caso sobretudo para o Henrique……
As fotos têm a vantagem de nos mostrar o que fomos, mesmo quando tudo muda, e pelo menos essa retrata momentos muito felizes…e nas fotos nunca envelhecemos…..
Gosto muito dos seus textos!!
As fotos são um registo fantástico para avivar memórias. São momentos parados que puxam a fita da história. Obrigada Raquel. Bjs