Pequeno preâmbulo antes do que interessa e ao que afinal venho:

Trouxe comigo uma saqueta de chá de um pequeno- almoço num alojamento Airbnb na Irlanda, em 2019. Ontem, antes de ver a outra metade do filme que iniciei na noite anterior, adormeço invariavelmente a meio, fiz um chá como é hábito. Das variadas saquetas que tenho na caixa do chá, decidi-me pela Luxury Kenyan Tea, comercializada pela Robert Roberts- Ireland 1905. Estava ali há tanto tempo, era o momento. O chá é óptimo. Bebericando e bebericando, quando o filme terminou contava já três chávenas. Que interesse têm estes pormenores, perguntar-se-ão? Um momento, por favor.

Apaguei a luz e no relógio passava da uma da manhã. A partir daí, a noite bondosa transformou-se num suplício maior que toda a área urbana do Quénia, sem contar as plantações de chá,  de onde ganhei uma noite em claro. O silêncio, contrariamente ao habitual, facilitou a aceleração de imagens e lembranças num curto espaço de tempo, sem intervalos significativos, entre si. Puta de insónia: era este o nível do linguajar da vozinha arreliadora que todos temos cá dentro e que, em jeito de reprimenda, me fazia olhar o bule do chá de mau modo. Não me ocorreu a ideia clássica de contar carneirinhos, mas valeu-me a imagem algo confusa de um carneiro, o Tollan. É aqui que começa a narrativa. É aqui que Tollan faz uma investida na linguagem rude e intelectualmente menos habilitada para contar a história de dois amigos improváveis: um carneiro e um pastor-alemão.

A primeira vez que os dois mundos se cruzaram, (animais de companhia e animais de criação que servem à rentabilização do negócio de venda de gado), estava o cordeiro debilitado. Precisava de cuidados,  precisava de ser alimentado a biberão. E nestas lides a criançada entusiasmou-se, e o meu pai também. Pouco depois já tinha nome, Tollan, designação de mau agoiro** que daquelas carnes magras rapidamente se esfumou. O cordeiro ganhou formas e robustez aos nossos olhos e aos do jovem pastor- alemão, de seu nome Dog, filho único de uma ninhada e único nos mimos de toda a família. O Dog aprendeu a ficar deitado, de cabeça levantada ou sobre as patas, curioso e expectante aos movimentos do Tollan, a cada investida no biberão que lhe insuflava a pele. Inevitavelmente, foram-se aproximando, cheirando, reconhecendo, respeitando as ordens de comando e o espaço de cada um.

A robustez de Tollan levou-o de volta às pastagens, mas a amizade e a ligação que os dois estabeleceram nunca se quebrou. Todos os dias, o cão subia para o banco detrás do jipe e acompanhava o meu pai, numa curta viagem que lhe permitia brincar com o carneiro. Relacionavam-se como se fossem da mesma espécie, confundindo quem os olhava de fora. Corriam levantando poeira, escorregando em curvas apertadas, mal planeadas. Sabiam de cor o espaço que lhes era dado por entre vacas charolesas,  ovelhas, cabras, o burro, Joli, um cavalo e uns quantos gatos vadios, encantadores de rolas bravas. Tollan, avantajado, investia de prudência comedida contra o cão e voltavam ao início da brincadeira vezes sem conta, até adormecerem  na sombra da maior sobreira da pastagem. Nunca era uma investida contra, era sempre um jogo admirável e surpreendente, entre um carneiro possante e um pastor alemão atlético, leal, inteligente, habituado a exibir-se. Nenhum dava mostras de querer ser o grande exemplar da sua espécie. No entanto, era assim que eram vistos pelas pessoas que admiravam esta relação de amizade. Até o veterinário local tecia considerações sobre o facto, sem nunca deixar de vaticinar que num desses dias, as coisas podiam correr mal. Certo é que os dois amigos sabiam, melhor que ninguém, ter escolhido o destino da amizade invulgar que os unia. Tollan, no meio da sua vida sui generis, nunca soube do destino habitual que estava reservado aos da sua espécie.

Pela primeira vez, tornou-se inconcebível vender um animal.

Dog sobreviveu a Tollan. Não me lembro de quando e como aconteceu. Sei que um dia, Tollan fechou os olhos para sempre. Repousa na sombra da sobreira, onde costumavam dormir juntos.

Tempos depois, sendo o Dog  muito velhinho, segurei-lhe a cabeça entre as mãos e segredei-lhe ao ouvido que o Tollan descansava na sobreira grande. Era lá que o podia encontrar. Vi-lhe uma alegria brincalhona no olhar e as orelhas arrebitaram-se por instantes.   Deixou-nos pouco depois de completar quinze anos e foi sepultado junto à sobreira grande, no meio de uma pastagem verdejante.  Os dois foram protagonistas de uma amizade que os imortalizou.

Graças à conjugação geográfica improvável : Quénia, Irlanda, Lisboa, voltaram à minha memória.  Tollan, o senhor do pasto e da erva fresca. Dog, o cão mais amigo e leal de sempre. Voltaram para que escrevesse sobre a sua amizade numa noite de insónia.

N.B.

 

** Numa manhã de nevoeiro, a 16 de fevereiro de 1980. O porta-contentores Tollan, de bandeira britânica choca, em pleno estuário do Tejo, com o navio sueco Barranduna. O gigante dos mares tomba sobre si próprio e arrasta para a morte 4 dos 16 tripulantes, incluindo a mulher do oficial de máquinas, Colin Campbell.

Dog, num dos Invernos rigorosos do Alto Alentejo. (1988)

A minha filha Francisca no prado verde entre descendentes e amigos do Tollan. (2004)

 A saqueta de chá que motivou esta história.

 

 

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