O tempo passou depressa. Não é a expressão que me ocorre para caracterizar os últimos dez meses de 2020. Lembro-me de como começou. Lembro-me de festejar a passagem de ano, dançar toda a noite como não é hábito em mim. Sou mais do género copo na mão, conversa, piadas e lágrimas. Num ápice chego a Fevereiro. Festejo o meu aniversário. Entra o Carnaval. Adoro o Carnaval. Coincidiu o dia de Carnaval com o aniversário da minha filha mais nova, motivo redobrado para uma festa de máscaras. Depois a minha história confunde-se com a história de toda a gente, o confinamento, o tempo parado, o medo, a incerteza. Muda a forma como nos relacionamos, surgem novas regras, distanciamento físico.  A economia desmorona-se. Somos forçados a um encontro inesperado e difícil com nós mesmos. Olhar para dentro mais do que se queria, às vezes mais do que se podia.

O ano de 2020 está a terminar. Surpreendeu. Contra todas as previsões foi absolutamente inesperado, mesmo para os que nunca esperam coisa alguma. Chegou o momento de lhe fecharmos a porta. Rodemos a chave até sentirmos a última volta na fechadura. Que a ninguém falte as forças. Use-se as duas mãos à cautela, se necessário. Depois barrique-se a porta com uma trave de madeira ou uma cómoda antiga e pesada dos avós. Cada um use de engenho e graça, porque é a ocasião.

E como diziam os antigos, os que mais sabem:  Fecha-se uma porta e abre-se uma janela. Assim será.

2021 é a janela que se abre. Cabe-me lembrar que uma porta não é uma janela e uma janela nunca será uma porta. Quero com isto dizer, que a janela é por definição uma abertura feita para deixar entrar a claridade e o ar.

Aproximemo-nos e respiremos devagarinho. Neste ponto, é minha obrigação terminar o texto, pois tudo o que acrescente são derivações, estados de alma, excesso de fé, próprios de uma pessoa idealista e crente na humanidade. Contudo, não resisto a ensaiar o lado cinematográfico da coisa. Realizo 2021 a partir de uma imagem replicada inúmeras vezes, quase como um reflexo de luz, o da janela que se abre. Onde quer que haja gente há uma janela que se abre. A objectiva capta assim a percepção do indizível que é a parte fundamental. Estão a ver? Como no cinema, os olhos captam o momento em que o tempo deixa de estar parado. É tão fácil sentir, ter a sensação do tempo novamente em movimento. Sentir a liberdade que se afirma entre os espaços intermédios, entre uns e outros, por entre as janelas. E há gente emocionada e a aplaudir como quando nos juntávamos todos para homenagear os profissionais de saúde. Entrego-vos a objectiva e a continuidade do argumento.

Respiremos devagarinho, gente atenta, gente zelosa da liberdade que conquistou e quer garantir. Os mercados bolsistas do mundo inteiro estão de olhos postos nas nossas janelas. Precisam de nós para que se mantenham abertas. Respiremos devagarinho, sem baixar a guarda, sem descurar esforços, mantendo a máscara e toda a ladainha que estamos cansados de ouvir.

2021 está aí. Respiremos devagarinho e aproveitemos a oportunidade que nos foi dada para valorizar o que é essencial e para nos conhecermos melhor lá dentro, onde temos vindo insistentemente a aprender a respirar fundo e devagarinho.

Um Bom Ano Novo

Natália Batista

 

** Imagens Pinterest

2 Comments

  1. Carla Nascimento Responder

    Fez-me reflectir essas tuas palavras, nesta noite em que se encerra o ano de 2020.
    Também entrei em 2020, a assistir um lindo fogo de artifício e com uma série de projectos. Logo em Fevereiro fui fazer uma viagem de sonho, conhecer Nova Iorque e fazer tudo o que tinha direito. Carnaval, Também para mim uma das festas que mais adoro e em 2020, fui a 2 festas Carnavalescas e até interpretei 2 personagens distintas, parece que estava a adivinhar que não valia a pena, reservar o fato para o ano seguinte. Trails, corridas, escapes rooms e de repente pausa total… Muito estranho, de repente tudo ficou para depois….
    Que 2021 seja um ano de afectos , concretizaçoes e de muita saúde.

    • Natália Batista Responder

      Feliz Ano Novo Carla, vemo-nos lá com aquele abraço que está guardado.

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