De volta a casa para seguir vida fora. É este o pensamento de Paloma Navarro, A Catalã, como é conhecida. Sentada na sua poltrona preferida responde às muitas mensagens de amigos e alunos d´A Companhia de Baile, após um internamento por Covid 19. Trocou Tarragona por Almada há mais de 30 anos, quando conheceu Inácio Torres e se perdeu de pasión, como gosta de contar entre gargalhadas. Casaram num dia de sol de Inverno, cheio de emoção e flamenco. Pouco depois, nasceu, A Companhia de Baile. O espaço necessário à transitoriedade de dois mundos distintos, o da bailarina catalã e do empresário português. O ponto de sabedoria que ambos souberam conceber para acrescentar futuros. O projeto de uma vida para Paloma, que acompanhou o desejo ardente de uma vontade firme. Talvez por isso, o passar dos anos em nada lhe tiraram a beleza ao rosto. Há uma inaudita confiança nas palavras que emprega, num português graciosamente misturado com castelhano, ou ao contrário. Não há como resistir à alegria, à elegância, ao carisma e à sencilhez d´A Catalã.
Inácio admira o protagonismo da mulher e o profissionalismo da bailarina.
A Companhia de Baile é uma escola de referência no ensino artístico da dança. A catalã garante uma contaminação geracional entre jovens e seniores. Ensaiam-se linguagens ao ritmo da música, do som da sola dos sapatos a marcar os tempos do flamenco e outras danças. Nisto, os que vão avançados na vida sentem que não podem perder tempo a morrer, enquanto estão vivos.
Quando adoeceu com gravidade, Paloma Navarro teve consciência que o tempo se tornou opaco. Inácio Torres encheu-se de vozes fortes para impedir o medo de a perder. Agora é um alívio tê-la de novo em casa, a inventar entusiasmos por entre a fraqueza, num portunhol mais vincado que nunca. Reclama que não é ativista de sofá e enche a sala de música com Paco de Lucía, enquanto aguarda pelo fisioterapeuta.
A catalã sabe, que os dias sem memória acontecem no último degrau da vida. Teve a sorte de não o descer.
Mexe os dedos dos pés e movimenta os ombros sem sair da poltrona. O rosto ilumina-se, sem que alguma vez se tenha considerada uma iluminada. Apenas possui uma qualidade inata para renascer.
N.B.

2 Comments
Li com agrado, porque é um texto simples que fala essencialmente de uma mulher viva, que faz pela vida , com um relacionamento feliz, e que não desiste.
Obrigada Margarida:)