Chama-se Perpétua, como a mãe e a avó materna. Acorda cedo, o corpo já não se faz à cama. Rega a pequena horta ao fundo do quintal. Arranca as ervas dos craveiros de barro, agora envelhecidos como as suas mãos. Repete o gesto nas velhas panelas de esmalte, alguidares, baldes, latas grandes de conserva, tudo o que serve para aumentar o jardim colorido. Só a seguir se senta a comer sob os olhares da gataria, habituados que estão às sobras de café com leite e alguma côdea, que a falta de dentes a impede de comer. O petisco favorito dos gatos é a parte rija do toucinho. Frito de véspera para acompanhar o café da manhã. Passa horas sentada no quintal, debaixo da nespereira, a dar uns pontinhos de costura.
Quase a completar oitenta e dois anos, que sabe ninguém lhe os dá, a não ser ela nos dias em que amaldiçoa as dores nas cruzes e nos joelhos, que a impedem de caiar a frontaria da casa à cana.
Vive junto à linha do comboio, um Ramal encerrado há vários anos. Cresceu a ver passar os comboios. Foi uma das guarda linhas, profissão assegurada exclusivamente por mulheres, ao serviço dos Caminhos de Ferro Portugueses. Orgulha-se disso, de ter sido uma das mais de mil e seiscentas guardas de passagem de nível, que zelavam pelos atravessamentos rodoviários ao caminho de ferro. Trabalhou por turnos. As noites frias foram o mais difícil. No início socorria-se de uma lata cheia brasas de picão, como se diz no Alentejo, para se aquecer. Com o aparecimento da escalfeta e dos aquecedores, a casita de 3m por 3m ganhou conforto. Ouvia m sempre o programa de discos pedidos, da rádio local. O tempo passava com outro andamento.
Nunca assinalou um constrangimento grave à circulação. Talvez, uma ou outra vez, foi obrigada a desenrolar a bandeira vermelha, devido ao avistamento de gado bovino na linha. Cumpriu exemplarmente os procedimentos da profissão. O trânsito automóvel era pouco e as pessoas estavam habituadas ao fechar e ao abrir das cancelas da passagem de nível.
Reformou-se antes do tempo. Antecipou-se à progressiva automatização das passagens de nível com barreiras automáticas e semáforos e à diminuição dos comboios. Procurou outro ganha-pão. Mas os comboios sempre foram a sua paixão. Ainda hoje, guarda no quarto a bandeira vermelha e a corneta, velhas ferramentas de trabalho. E a mulher do chefe da estação, quanto fechou definitivamente o Ramal, ofereceu-lhe uma antiga cadeira de baloiço e uma caixa cheia de revistas de crochê e livros. Emocionou-se com tamanha consideração. Tudo faz parte das memórias e da casa que habita junto à linha do comboio. Nas tardes quentes de Verão, senta-se na cadeira de baloiço no meio da sala. Desmancha a banana que enrola os longos cabelos brancos, recosta o corpo seco nas costas da cadeira e abre um dos livros preferidos, oferta da mulher do chefe da estação. As Pupilas do Senhor Reitor, de Júlio Dinis. Uma releitura que muito lhe apraz.
Agora os livros levam mais tempo a ler, constata Perpétua. Adormece, invariavelmente, na cadeira de baloiço. E tem um sonho recorrente. Ouve ao longe o silvo de um comboio. É um comboio com muitas carruagens, como aqueles que outrora passavam a caminho de Madrid. É brilhante e muito bonito. Perpétua levanta a mão com a bandeira vermelha enrolada, o corpo em sentido como se estivesse numa parada militar. Estranhamente o comboio abranda, apesar de ter assinalado a via livre. Perpétua vê-o parar. Aproxima-se e a porta de uma das carruagens abre-se. Incrédula sorri sem saber do quê, nem porquê e estende a mão para entrar. Acorda sempre, nesse momento.
Não fala sobre isto com ninguém. Considera-o um sinal. Um dia, chegará o momento de entrar naquela carruagem.
N.B.

2 Comments
Gostei Natália, estórias de vida sofrida……e tslvez muita solidão? Será? Penso que seria im pouco assim a vida das guardas de oassagem de nível…..
Ainda assim uma ternura se sente nessa mulher, e o gosto pela leitura pouco comum, numa mulher, que pouco mais devia ter do que a quarta classe….isso é cativante
Beijinhos e obrigada
Olá Raquel, a estória como diz, pode ser tudo o que cada um sentir e encontrar quando a lê. Posso dizer que não pensei na Perpétua como uma mulher que sofre de solidão. Talvez alguém que teve um percurso de vida difícil, mas num lugar que quis para sempre, junto à linha do comboio. Talvez pareça raro, com pouca instrução ler assim:) Lembrei-me da minha avó Felicidade, que aos noventa ainda se entretinha a ler Os Contos do Eça e tudo o que lhe oferecessemos a ler.
Obrigada pelo comentário. Beijinhos