( * Esta é a primeira de três histórias, a que dou o nome de Histórias do Sono)

I

 

Era uma mulher ativa, disciplinada, cumpridora de rotinas que ela própria estabelecera para viver como sabia. Tinha predileção por inícios, o momento em que as coisas verdadeiramente acontecem. O início de algo, seja o que for, é sempre muito sensível. Funcionária pública, no final de uma longa carreira contributiva, trabalhava com dedicação num departamento da Segurança Social. Assídua e pontual, não se queixava do trabalho, apesar de não se sentir realizada. Possuía uma forte capacidade para amortecer o que lhe era desfavorável.

Em casa, nunca fora ativista do sofá. Vivia sozinha e tinha uma relação reativa com o tempo cronológico. As horas resultavam em bom proveito, quer as despendesse em atividades culturais, passeios, viagens, cursos de pintura, olaria, danças de salão, tudo o que lhe a prover experimentar. Uma personalidade curiosa, interrogativa, de espanto e não é exagero sublinhar.

Talvez o espanto fosse o motor da vida preenchida de inícios, incapaz de recusar novas experiências. Era feliz, contudo aos olhos dos outros soava um alarme e alguma estranheza. Isso não a aborrecia, sabia que viam apenas o lado de fora. No final do dia, fazia uma coisa incrível que não está ao alcance de todos. Permitia-se existir.

Existia como espetadora no teatro, num concerto de música, no cinema, numa exposição. Participava de encontros literários, aprendia danças, praticava ioga. Saía com amigos ou sozinha a um restaurante,  a uma esplanada. Passeava, viajava. E nunca se sentiu refém do desassossego ou da solidão.

Todas as noites, ao deitar, escolhia a posição dos mortos, no dizer da sua saudosa mãe.  De barriga para cima, o corpo alinhado, as mãos sobrepostas em descanso, entre a zona abdominal e o peito, assim adormecia. Partia para outro mundo, de onde regressava na manhã seguinte, se tivesse de ser.  Às vezes, pensava na sua querida mãe e na posição dos mortos. Sorria. E dizia baixinho, quase a adormecer: “Mãe, se eu não acordar, fica perto de mim. Tenho medo de não saber reconhecer o teu Deus.”.

N.B.

 

 

2 Comments

  1. Maria Raquel Freitas Responder

    Gostei muito deste texto Natália!!
    Não costumo comentar aqui no blogue, por falta de hábito e por vezes tempo….
    Obrigada….
    Beijo

    • Natália Batista Responder

      Olá Raquel, obrigada. Normalmente, “vemo-nos” no FB, percebo perfeitamente:) Um beijo grande.

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