Deixo-me levar numa narrativa mental sobre o tempo que passa, enquanto faço o bolo de aniversário da minha filha mais velha. Faz 21 anos, caramba 21, repito mentalmente, enquanto separo as gemas das claras. E continuo entre sorrisos, franzir de sobrolho, conversando para dentro, tecendo considerações sobre a voracidade do tempo, ou melhor dizendo a perceção do tempo. Com 21 anos, não me recordo desta sensação de galopar temporal, sem freio. Ponho o bolo no forno e decido-me a escrever sobre isto, que  acaba por suceder a todos os pais e mães. Lembro-me de uma frase de John Kennedy. Dizia que, “Quando nasce um filho tornamo-nos reféns do destino.” Somos outros.

Criar um filho, educá-lo, amá-lo, é a maior das tarefas. Resulta tanto melhor, quanto melhores forem os aliados, a família, os amigos, os professores. Relações cimentadas em amor, compreensão, exemplo, entusiasmo. Mas não há receitas, há regras, obrigações, tarefas que por mais desagradáveis que pareçam, impedem que se caía num abismo de lassidão, do fazer por fazer. E há asas que é preciso aprender a usar. Há estímulos, há a curiosidade para incentivar. Há a imaginação e os sonhos que são como um amigo imaginário. 

Já cheira a bolo de chocolate. 

Escrevo a pensar nela, nos 21 anos que lhe conferem alguma maturidade.  Lembro-me de mim e caio na contaminação de experiências para as quais nem sempre encontro analogia. E vou dizendo-lhe, que não pergunte aos outros o que fazer com a própria vida. Essa pergunta pertence-lhe por inteiro. Digo-lhe que quando encontrar uma coisa importante, não quer dizer que precise de renunciar a todas as outras. Conversamos, é isso que mais fazemos. A conversa é encontro, é remédio, é conforto. O silêncio serve para passar ao nível seguinte.

O bolo de chocolate cozeu e cresceu por entre considerações de uma mãe. A escrita pede-me explicações para as ocorrências da vida. Hoje não me pediu nada. Foi o bolo, a confecção do bolo que ditou isto tudo. Hoje, também, é o meu aniversário. Há 21 anos fui mãe pela primeira vez.

N.B.

 

2 Comments

  1. Mãe e filha estão de parabéns. A filha por ter a Mãe que tem e a Mãe por celebrar 21 anos de ter iniciado a grande caminhada que é criar e orientar a filha… sejam ambas felizes!

Escreva um comentário