É Verão e está aquele calor de que muitos se queixam como se vivessem outra estação. Já gastámos metade do ano civil ou terá sido ele a gastar-nos a todos? Foi ele certamente. Não quero olhar parar trás para o medo, o confinamento. Não sei imaginar o que se segue e também não quero. Perdi a mania de fazer planos, de sonhar adiantado. Fico-me com as horas.
Se cá estivesses seria diferente, tão diferente, mas como não estás troco conversa com o céu nocturno. Já não sei se estás abaixo ou acima das nuvens. Esqueci-me. Procuro a estrela onde te visitava. Ando de cabeça meio perdida.
É tudo tão contrário, não há abraços, nem beijos nem apertos de mão. Há uma moda nova nascida da pandemia, fazem-se cumprimentos com o cotovelo e até com o pé. Salvam-se os beijos no ar.
Foram séculos a erguer estátuas, igrejas, santuários, cruzes, crucifixos que podiam fazer um mundo melhor. Não foi suficiente. Há estátuas arremessadas ao chão e a religião é usada como estandarte de guerra, em demasiados lugares. A basílica de Santa Sofia é agora uma mesquita.
Continuamos a ser uma terra de pacificadores e terroristas, de amor e ódio, entre sonhos e certezas. Somam-se erros sistemáticos, fanatismo, falta de humanidade. O lado negro de um planeta azul. Um oceano de peixes que um pescador ardiloso observa e pesca. Um pescador habituado a observar o comportamento dos peixes, como se movimentam, como se orientam e formam cardumes, como se deixam levar nas correntes, como atacam e morrem. Graças a Deus não conhecemos o futuro, nem o dia que deixaremos de pertencer ao cardume.
Esqueci-me se estás abaixo ou acima das nuvens, porque há um outro lugar onde te encontro sempre.
E tu, onde quer que estejas não tires os olhos de mim.
N.B.

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