Diz o ditado que, Deus não precisa de tempo para mudar o tempo. Os que vivem este ano de 2020 são testemunhas de como, subitamente, tudo se altera e nada é dado por adquirido.  É essa a perceção de José Pronúncio, o protagonista desta história.

José Pronúncio, salsicheiro de profissão, consumia os dias a trabalhar numa empresa de salsicharia e enchidos tradicionais, num lugar que não serve de visita, no meio do Alentejo. Nos dias restantes distribuía conversa nos cafés, na coletividade da aldeia entre um jogo de bilhar e uma partida de sueca. Todos gostavam de o ouvir, de conversar com ele. Pronúncio era bom rapaz, educado, prestável,  atento, bem- falante, conhecedor de tudo o que se passa por esse mundo. Não concluiu o secundário, mas era um apaixonado por História e Geografia. Maria das Candeias, a mãe, com quem partilhava teto e vida, gabava-lhe o interesse pelos livros. O seu José devorava livros, costumava dizer em conversa na mercearia. Adorava biografias, lera sobre Gandhi, Karl Marx, Luther King, Che Guevara, Mandela, Gorbachev, João Paulo II e muitos outros. Eram tantos os livros que enchiam as prateleiras das estantes do quarto e da sala, que julgava aquilo vir a dar cabo dos olhos do seu rapaz. Ainda no outro dia, fora aos Correios levantar um livro que o primo Armando lhe enviara. O José, entusiasmado, passou o Domingo a ler o livro oferecido pelo primo Armando.  Um livro sobre o que é ser português, explicara à mãe. Um título bonito, O Labirinto da Saudade, do Professor Eduardo Lourenço, isso ainda fixou ela, não tinha vagar prá ficar ali a ouvi-lo.  O primo Armando era chefe de finanças numa repartição no Algarve, sempre que vinha à terra convidava José a jantar fora, a petiscar no terraço da Ti Arminda. Era como um irmão. Conversavam horas a fio sobre o passado, o presente e o futuro. Trocavam ideias sobre política, economia e finanças, neste ponto José ouvia mais do que falava. Armando elogiava-lhe os conhecimentos, chama-lhe autodidata e instigava-o a voltar aos estudos. Eram grandes amigos e graças ao Armando, José Pronúncio conseguiu o empréstimo para comprar a mota que sempre quis ter, uma Harley Davidson, em segunda mão. Um excelente negócio, no dizer do Zé Gato, o amigo das passeatas, mecânico de ofício e  o melhor que havia em toda a região. Juntos participavam em concentrações motards, em Portugal e Espanha.

Pronúncio reunia a estima de todos com quem privava. E quando veio isto da Pandemia, era ele o interlocutor mais procurado para travar opiniões, para conhecer as informações mais fidedignas. As dúvidas e o medo apoderaram-se da aldeia e José Pronúncio, com o seu modo claro de se explicar, nada dado a exageros, nem alarmismos, aquietou os sócios da coletividade, os clientes da oficina do Zé Gato, os vizinhos e amigos, os colegas da salsicharia e as amigas da mãe, que mais não faziam que rezar e chorar. A todos convenceu que o melhor era recolher a casa e esperar.

Maria das Candeias tomou providências, primeiro reuniu todos os santos e santas que tinha pela casa, juntou-os num altar no corredor dos quartos. A mesa pequena que servia de oratório a Santa Teresinha do Menino Jesus e que tinha ao fundo da cama, trouxe-a para o corredor dos quartos. Cobriu-a com a toalha de linho, imaculada, de bainhas abertas que a sua defunta mãe bordara e acendeu lamparinas de azeite aos pés dos santos, tal qual como na Capelinha do Monte, no Altar do Senhor. A luz bacenta, no pavio das lamparinas a arder no azeite, pintava as paredes do corredor de tom amarelecido, doente, algo fantasmagórico, até. Assim tinha de ser, noite e dia pela proteção de todos, dentro da casa e fora dela, onde quer que houvesse gente. O azeite era novo, dos olivais que o marido comprara um ano antes de morrer, de doença ruim.

Alheio as estas diligências, o filho encerrava-se no quarto. A salsicharia fechara por causa desta tão grande desgraça e ele lia mais do que nunca. Maria das Candeias, mulher alta e magra, de pele clara, olhos azuis acinzentados, usava um travessão antigo, de prata, que lhe segurava os cabelos, nem brancos, nem cinza, nem louros, uma mistura de tons que a diferenciava das outras mulheres, deste lugar. Parecia mais nórdica que alentejana de Serpa. E porque era Domingo, foi-se à cozinha.  Era dia de almoço melhorado. Uma galinha, da sua criação, tostava no forno com batatinhas e cebolinhas novas da horta. A ver se a gente arriba, pensava Maria das Candeias, que o conforto de uma boa refeição faz milagres. Ah se faz, e, entretanto acautelava as mãos do tabuleiro quente do forno, enquanto regava de molho as batatas, a galinha e as cebolinhas. O cheiro a galinha tostada espalhava-se pela casa. No fogão, em banho- maria, cozia um pudim de ovos, o preferido do filho. E nisto, lembrou-se de o chamar, mais valia que fosse cortar uma alface à horta e largasse os livros. Ouviste José? Corta uma alface, filho.

Maria das Candeias, desta vez, estava enganada. O filho fechado no quarto não lia, entregava-se a uma conversa com Deus, um monólogo, vá lá.  José Pronúncio tinha, por altura da passagem de ano, feito um pedido a Deus Nosso Senhor. Pedira, Pronúncio, que Deus permitisse que ele, jovem, cheio de força, de sonhos, de vontade de mudança, pudesse participar, pudesse viver algo de excecional, histórico, único. Dispunha-se a lutar, a envolver-se de corpo e alma num movimento que unisse os homens num bem comum. Escusado será dizer, que quando se começou a falar da doença, da Covid-19, José Pronúncio correu a emendar o pedido. E era nisso que se demorava, fechado no quarto, quando a mãe lhe pedia que fosse cortar uma alface para a salada e que a galinha estava quase pronta.

(Continua nas próximas publicações , aqui no blog )

N.B.

*** imagem pinterest

 

2 Comments

Escreva um comentário