Reconheces uma revolução? Há uma revolução a acontecer.

Quebram-se rotinas, modos e meios de vida. Detenho-me no que conheço, na forma linear que servia a orgânica doméstica da casa. Em todas as famílias dá-se nome às horas: a hora de acordar, a hora de ir para a escola, a hora de almoçar, de passear o cão, de ir à natação, a hora do telejornal ou de dormir. Parcelas do tempo rebatizadas com novas expressões, por causa do confinamento, a hora da telescola, as aulas virtuais, do passeio higiénico, do zoom da família. A nova doença e o confinamento social reformulam rotinas, enfiam-nos em casa, obrigam-nos a fazer avaliações ao que se pode fazer.

Nasce uma revolução com milhares de vítimas. Uma revolução feita de volumes vazios, coisas que já não servem, que já não podem acontecer como antes.

Cansam-nos até ao infinito,  fazem-nos desaprender sonhos. Uma pessoa tenta, esforça-se e volta cansada do futuro. Isto importa pouco à intensidade devastadora das mudanças. Perde-se o nome e o significado dado às horas na casa de cada um, nos locais de trabalho, de culto religioso, ou de diversão. Sair à rua é respirar através de uma máscara, encontrar sorrisos nos lugares menos habituais, certamente, nos olhos que se alargam, nas sobrancelhas que se elevam.

É difícil ser leve neste espanto diário, estranho e inimaginável. O silêncio de morte dos funerais com restrição familiar, os beijos virtuais, os abraços em modo de sinalética universal. Ingerências da doença que apertam, por fora e por dentro.

S. Tomás de Aquino terá dito, “A paciência é a capacidade de não desesperar. ” Concordo, mas de tanto a exercer, gastam-se homens e mulheres.

A nova doença  aproveita da humanidade os seus contrastes e assimetrias. Deito-me na cama a imaginar futuros e dou-me conta que projeto o passado, sem pensar o futuro, porque o mundo já mudou o suficiente.

A cultura de avalanche a que nos habituámos, em modo rápido e descartável, ficou ferida. Exilou-se em diretos e remakes na internet, nas redes sociais. Pressinto que aumentou significativamente a qualidade da escuta. Vê-se na curva, que anteriormente lhe assinalava o défice.   Também começámos a habituar-nos a interpretar curvas, gráficos, números da doença e da sobrevivência. Mais do que nunca o mundo diz-se plural, pandemicamente plural.

O ponto de sabedoria está em saber viver e sobreviver ao presente. As viagens são metafóricas. Enriquece-se tanto mais, quanto se viaje dentro, no fio da própria narrativa.  A criatividade é mais que um recurso, saiu do patamar e encheu o interior das casas, inundou-nos como um rio refrescante, onde se banham os que imitam com inovação e os que criam com dom e genialidade.

A autoestrada é um caminho interdito, tal como as outras estradas que me levariam àquele lugar. Envelhecemos todos na duração da pandemia.  E, continua a discussão sobre quando começou. Ninguém sabe quando termina.

Teimosamente, procuro ideias de futuro, imagino a força e a coragem de super-homens e supermulheres. Procuro palavrinhas de bem para distribuir cá em casa, pelos amigos, no blogue, na varanda. Palavras felizes que valham, que nos valham.

Faço incursões ao futuro, de onde volto calada e cansada. Lá, nenhum de nós é o mesmo. Contudo, continua a haver publicidade aos desodorizantes, há uma avenida chamada Cacofonia, os galos cantam e as galinhas põem ovos, muitos  continuam a dizer que dar é melhor que receber, Jesus continua na cruz, há estrangeiros e refugiados, há muita geografia e é difícil ser turista. Consola-me saber que mesmo lá, ninguém sabe o que o futuro lhe reserva.

O futuro tem um formato igual ao do presente, não é definitivo e a pandemia, também. Quanto ao resto, se não descansei ninguém, ao menos terei alertado para uma revolução em marcha,  que vem repleta de volumes vazios.

O desafio é preencher o vazio.

N.B.

2 Comments

  1. Isabel Janeira Responder

    Mais um post que tanto gostei de ler…. um passado conhecido em contraste com um vazio de futuro que tanto nos angustia mas que temos de suportar…

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