É a primeira vez que passo a Páscoa em minha casa. É tradição rumar ao Alentejo, à minha aldeia natal, junto à fronteira de Marvão. Mesmo depois da mãe morrer e mais recentemente com a morte do pai, era lá que tencionava celebrar a Páscoa com a restante família. Confesso que ontem, Sexta-feira Santa, entristeci. Uma tristeza dissimulada de nostalgia, de cansaço por esta reclusão sem fim à vista. Saudades dos meus, dos que estão longe e dos que eram a Páscoa, os que faziam o repasto de sabores que por mais que tente nunca será igual.  Confesso, ontem surpreendi-me várias vezes à janela numa busca inalcançável  daquela Páscoa, na casa materna, das conversas repetidas como os filmes da Paixão de Cristo com que as televisões nos presenteiam, sempre. E da minha janela, aquela Páscoa e esta Páscoa embaciaram-se com as lágrimas que me assomaram aos olhos sem me dar conta.

Não, não é fácil para ninguém o que está a acontecer. E o que está a acontecer é de uma vastidão tão grande, que é bem maior do que representa o globo terrestre, que desligo todas as noites no quarto da minha filha, antes de lhe dar um beijinho.  Obriga-nos a resistir física e psicologicamente face ao presente e sobretudo face ao futuro, que intuímos.

Confesso o meu medo disfarçado de rotinas aldrabadas nestes dias tão estranhos. Confesso que escrever ou falar é, por estes dias, uma maneira de ser calada. O optimismo misturado com o pessimismo, como o galão feito em casa, mas falta-lhe a espuma, falta-lhe o tom carregado do café, falta-lhe o ar da rua, a mesa da esplanada, as pessoas, o barulho das pessoas,  a vida lá fora. E por isso, o optimismo e o pessimismo de pouco servem.

A Páscoa para mim é agora a avaliação das memórias e dos rituais na minha família. Amanhã, Domingo de Aleluia, é a nossa primeira Páscoa em casa. Apenas quatro à mesa sem as habituais iguarias alentejanas. Nascerão memórias futuras deste almoço inaugural.

Em todas as casas terá de haver a capacidade de fazer com que uma coisa seja outra. Esta Páscoa seremos todos Ulisses, conscientes da Odisseia que temos pela frente, antes de regressar a casa.

Boa Páscoa

N.B.

3 Comments

  1. José Caldeira Martins Responder

    Não terá nada a ver. Mas o sub-consciente deu-me para ir ouvir o grande Juan Manuel Serrat: Penélope. Boa Páscoa

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