“Porque como chocolates? Que parte de mim guarda todo este açúcar e o que fará com ele? É energia de que não preciso, que não gasto em nada que me sirva. Para o gasto da vida chega bem o resto, pouco de tudo, só para acordar outra vez e de novo transportar o corpo para os lugares que já se conhece. Levo os dias sem precisar de mapas complicados porque não vou aonde não estive.”
Quem pensa assim é Manuela, personagem de Debaixo de Algum Céu, de Nuno Camarneiro.
Sorrio e concordo com ela em parte. O chocolate serve-me para compensar o que não compreendo. Há coisas que faltam à compreensão, mesmo que se aceitem. Um abraço, um mimo são uma alternativa, mas o chocolate não questiona, delícia. E não vou a parte alguma, cumpro um isolamento de carácter planetário, inimaginável. Querem-se termos certos, cientificamente validados para abordar o que está a acontecer(-nos) e como prosseguir para uma meta que não é visível.
O melhor é petiscar livros, passear dentro deles, conhecer a Manuela, a professora que come chocolate enquanto prepara aulas, ou as personagens do Bairro Amélia, na margem Sul, com Bruno Amaral, em As Primeiras Coisas. E se o mundo em pandemia é inacreditável, experimente-se vivê-lo numa barcaça, quando o fim do mundo se transforma num mundo flutuante, em que alguns vivem em barcaças, outros em dirigíveis, numa sociedade estratificada socialmente e o poder económico dita a ordem das coisas. Uma narrativa fantástica, de José Eduardo Agualusa, A Vida no Céu, ou ler outra história cheia de imaginação, em que uma das personagens conta: ” Na minha família não se chora desde o ano de mil quatrocentos e cinquenta e três (…)“.
Não disto é para esquecer, mas para distrair. O livro é de Afonso Cruz, intitulado, Flores, lá vivem Margarida Flores, Clarisse, o senhor Ulme e tantos outros.
As casas parece que encolhem por estes dias. Precisa-se imaginação, a saúde e um teto não chegam. As casas encolhem e o mundo está cheio de notícias que se repetem.
Nos livros, o início e o fim estão ao alcance de umas páginas. Na vida não é previsível. Nos livros há histórias, lugares, gente para conhecer sem sair do sítio. Há palavras que se misturam bem com o café. Um vício.
N.B.
