Tive um sonho, daqueles que se tem com os olhos fechados, a dormir. Um sonho carregado de pormenores. Uma canseira, uma tarefa descomunal, sobretudo pela obrigatoriedade de ser feita num só dia, sob pena de nunca sair dali, da minha casa. Adivinho-te a curiosidade que sacio, de seguida.
Sonhei que fazia o inventário da minha casa com a minúcia, o rigor e a exaustão, a que a tarefa obriga. Décadas de vida a acumular, a criar importâncias e sem importâncias, a colecionar, a materializar memórias, a guardar a vida em gavetas, prateleiras, caixinhas, álbuns, molduras, pens, cloud ou átomos que só eu vejo. Vi-me a braços com todo o recheio da casa, as gorduras e as magrezas, as entranhas de lixo, do que não serve, do que, ainda assim, continuava lá. Encontrei a mortalidade e a imortalidade dentro de uma velha agenda telefónica. Um número de telefone que sei de cor, de uma casa vazia de pai e de mãe. Encontrei de tudo, até mazelas do corpo e da alma guardadas como tesouros, que não apetece abrir. Ainda assim, era uma casa muito engraçada, como cantava Vinícius de Moraes. Refletia o peso e a espessura dos hábitos. Livros, papeis, apontamentos do tempo da faculdade, cadernos anotados da década de 80, folhas com desenhos, rabiscos, corações e flores, nomes de colegas do secundário, cartas amarelecidas, coleções de postais, de autocolantes, folhas secas fechadas em livros da Agatha Christie, onde secaram amores da adolescência.
Exaspero-me com o fazer e o desfazer, a enumeração, o registo das coisas. E acalmo-me, não há nada pior que o desespero e a precipitação. Suspendo as emoções e concentro-me na tarefa. Canto uma música do João Pedro Pais, “és do mundo, e que mundo é este”(…), “a vontade é a primeira, nunca foi de te deixar, (…) és do mundo, e que mundo é este”.
Começo a admitir que isto não passa de um delírio doméstico, um pesadelo do qual não há maneira de acordar. Ocorre-me que o esquecimento é uma benfeitoria, a que me posso agarrar. É desonesto, talvez, mas é um processo não evasivo e o inventário tem de ser feito. E de repente, os meus braços movimentavam-se como hélices. De repente, assemelho-me a um drone que supervisiona as coisas da casa, a partir do ar. Sinto uma pequena felicidade, quando alguém entra na sala, pega nas folhas todas do inventário e atira para o cesto dos papeis. Era uma das minhas filhas, que olhou aborrecida para mim e exclamou:
“Outra vez aí em cima mãe, é melhor desceres e sacudires bem as ideias, a sopa está na mesa.”
Apressei-me, passei ao lado do cesto dos papeis em jeito de fuga, como quem teve um pesadelo. E depois fiz uma coisa incrível, acordei.
N.B.

2 Comments
Gostei do que li e imaginei o pesadelo, pesadelo este que, felizmente já me sinto liberta …. Parabéns!
Não foi bem um pesadelo, foi uma mistura de situações, de graças, de inevitabilidades. Tudo junto deu esta narrativa:) Obrigada por comentar. Um abraço.