Lx, 18 de março, 2020.
Olá, A.
desliguei a televisão. Eles que digam e façam o que acharem melhor, felizmente ninguém me vai pedir a opinião. Vim à pouco do Continente, tivemos de sair para abastecer. Parecia um filme apocalíptico, daqueles americanos em que eles, os americanos, são os heróis. Mas não os vi, aos americanos. Apenas uma fila monstra, onde aguardámos vez para entrar. Muitos de máscara e luvas, outros “ao natural”. Homens velhos com ar aflito, incrédulos. Arrepiou-me. Lá dentro, tudo calmo. Frescos nem vê-los. O pão escasseia, exceto os Bimbos. Voltei apreensiva. Cada idoso que vi, fez-me pensar no risco de saúde que eventualmente incorria. Já pensei mil vezes no meu pai e dei Graças por ter partido sem presenciar isto. Era hemodialisado e sofria de patologias várias. Mistura-se em mim o prático, o racional e o amanhã logo se vê. Por isso, preparo-me para fazer rissóis e outras receitas que permitam aproveitamentos e que rendam. Mas também me deixo levar pela emoção, por pensamentos e tagarelices mentais que me transporta para cenários tenebrosos. Ando a ler os Diários de Saramago, leitura em que não me perco e permite petiscar outros livros. Encontrei lá esta expressão, que é ao mesmo tempo uma pergunta: O que cabe entre um crepúsculo e uma alvorada?
Que caiba esta pandemia, mas não dure mais do que isso. Tenho receio que mudemos tanto, que não saiba reconhecer-me.
Espero-te bem e só te posso desejar saúde. Vamos mantendo o contacto.
Beijos
N.B.

2 Comments
A carta que ninguém gostaria de escrever, tão pouco de a receber…. contudo os dias que estamos vivendo alteram por completo o sentir do remetente assim como de quem a recebe…
Sabe, cada vez mais confirmo a importância da escrita e da leitura. Uma outra forma de estarmos presentes, de comunicar, de abraçar. Vou tentar fazê-lo por aqui, de forma mais abrangente. Bjs