Lembro-me de que um dia quis ser árvore. Perguntaram-me, como só os adultos gostam de perguntar:  “O que queres ser quando fores grande?”. Sem hesitações, respondi com a serenidade dos meus cinco anos, que queria ser árvore. Acharam-me imensa graça, mas não entenderam o porquê da minha resposta.  No bairro onde morava todas as casas tinham um quintal e todos os quintais tinham uma cancela de ferro, que resguardava a privacidade e a propriedade de cada família. Diz o ditado,” a galinha da vizinha é melhor que a minha”, também eu tinha uma certa predileção pelo quintal da vizinha. A admiração estava na enorme cerejeira. Encantava-me quando floria, quando se enchia de cerejas vermelhas, aos pares, às vezes, a quadruplicar nos galhos e que me  entretinham num jogo aritmético,  cujo prémio era saboreá-las. Passei dias debaixo da árvore, sentada numa cadeira pequenina, comprada no Redondo, azul com flores coloridas, reservada para mim. Os meus vizinhos sentavam-se à minha frente, em cadeiras iguais de cor verde com flores coloridas, compradas no mesmo sítio, o Redondo, nome que me fazia rir e gesticular com as mãos, desenhando um círculo, e ali ficávamos. Eles a ouvir-me palrar, a inventar histórias de livros que ainda não sabia ler, a fazer flores de papel ou bonecos feitos de garrafas de plástico, forrados a folha de alumínio para afastar os pássaros das cerejas. A árvore tinha vida própria, despia-se e vestia-se consoante as estações do ano.

Na época da floração o quintal do lado enchia-se de flores e abelhas. Cada flor é uma cereja, diziam-me. Fascinada observava a árvore no seu mistério. Certa de que um dia me ofereceria de volta os mais bonitos brincos para pendurar nas orelhas.

Naturalmente, que queria ser árvore. Naquele perímetro de sombra, de flores e de frutos descobri que nada é instantâneo. Há um tempo, um ciclo,  há crescer e o amadurecer. A interpretação e as palavras encontrei-as agora, quando penso na resposta à célebre pergunta dos adultos.

Sinto a responsabilidade da relação sensível que ali estabeleci. Tal como as cerejas  nascem na cerejeira , há palavras que nasceram neste quintal, através das histórias e da procura incessante de significado para traduzir a naturalidade das coisas. Quando recordo os riso que a minha resposta provocou, sei que não vou defraudar esta menina, porque  não o poderia fazer. Há uma verticalidade, uma herança de valores que me impele a ser como a árvore, a não ceder ao instantâneo, a adaptar-me às mudanças, a aceitar cumprir os ciclos de vida, a  fazer e  desfazer. Mesmo se não florir com a mesma exuberância, perceber que murchar faz parte do processo.

Ainda quero ser árvore.

N.B.

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