Pai, este ano fica marcado pela tua morte. Uma pessoa agora tem de se curar, disseste e percebi o alcance das tuas palavras. Não aconteceu, 2019 pôs-me onde não quero estar, na linha da frente. Agora surgem novas formas de te/vos nomear: a cadeira do pai, o livro de orações da mãe, a casa dos pais, no tempo da mãe. Tudo fisicamente ausente, desesperadamente vazio.
Penso em ti, pai, mais do que antes. A ausência tem este quê de pertença, de resgate para que a nossa história não se desintegre no tempo. Forte ou frágil a dinâmica familiar sofre um abalo sísmico. Há réplicas em mim.
Tenho saudades, pai, das nossas conversas por vezes em contramão, do teu sentido de humor, da tua tortice, da falta de jeito ao telefone, da mão 5* de cozinheiro, tenho saudades tuas. O teu tempo cumpriu-se.
Sou a menina que joga à malha no quintal, que se esconde a ler, a que escreve para lembrar e esquecer. Estou consciente da vida e da morte e isso aflige-me. Sou a menina a quem davas a mão para não me perder. Fiz o mesmo contigo, dei-te a mão naquele corredor das urgências, num sofrimento feito de coragem. Ficámos assim, até ao fim. 
Posso amar, a ti, à mãe sem vos ver.  Na maior parte do tempo não chega.
N.B.

P.S. Continuo a ser a tua menina dos pés frios.
http://escrevemedevagar.pt/2017/01/23/a-menina-dos-pes-frios/

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