Do que é feito o tempo? Horas, minutos, segundos, folhas de um calendário. Tem de ser mais do que isso. Cada ano que termina deixa em mim tanto do que não vai. A última folha do calendário é apenas uma folha, à qual se segue outra e eu com tudo o que levo dentro.
Temos uma tremenda necessidade de observar com distanciamento começos e fins, na ilusão da obra feita. Temos a tentação de preencher o tempo, como se isso nos tornasse mais capazes, melhores, mais realizados.
Descubro o contrário deste modo. Descubro o saber que advém da observação, da contemplação, da meditação, assim sem hora marcada ou quaisquer rituais. Pausas, todas as pausas que se determinarem. Ouvir o corpo. Pensar com o corpo. Há coisas que ocorrem, pequenos pormenores, lembranças, ideias que parecem estar à espera do dia, desse dia para voltar à vida, à ribalta de uma narrativa que seja.
O tempo dos relógios é-nos imprescindível, mas o tempo interior, pessoal, incomensurável é vital. Sobreviver e viver, tal e qual. O ano de 2020 acrescenta-nos tempo, apenas isso. O ano de 2020 acrescenta-nos conhecimento, resistência, consciência, bagagem emocional, amor, alegria, serenidade, compaixão, luz, quando o relógio interior não for apenas uma expressão adquirida num programa da tv.
Ambicionamos a saúde de forma permanente, a felicidade de forma permanente, o amor de forma permanente. A forma permanente é a ideia idealista de eternidade. O que faríamos com a eternidade? Dávamos-lhe o tempo do stress com que vivemos diariamente?
Neste final de ano, reflito sobre o tempo do relógio e o outro. E sem ter respostas concretas, convido-vos a ouvir o corpo, a parar e observar, a meditar, a perceber o que afinal é o tempo e como o gastamos.
Sejam felizes.
Bom Ano de 2020
N.B.
