Fechou-se por dentro com uma chave invisível feita de força, de autodomínio, de uma compreensão extraordinária. Nada disto se vende na Amazon, nos livros de autoajuda, em pílulas douradas para acalmar ansiedades. Fechou-se por dentro como habitualmente na época das luzes que piscam, das corridas que esgotam o orçamento do mês e do décimo terceiro mês, das músicas dos Wham, da Mariah Carey, dos chocolates com ginga, dentro. Quase ninguém dá por isso, pelo encerramento temporário, sem letreiro do lado de fora. Porque de onde se vê  está tudo igual, o sorriso disponível, a aparente leveza com que prepara o que faz falta, a desatenção impercetível capaz de a salvar do que lhe desagrada. Mecanismos criados em momentos difíceis, aprendizagens otimizadas com maturidade. Nada disto é feliz ou triste. As boas estratégias nascem em período de guerra, enquanto se contam os mortos. A fragilidade, ao contrário do que se pensa, é  berço de muitas forças.

Fechou-se por dentro, onde o Natal não a alcança, onde sabe ser longe, sem luzes, sem brilhos,  sem aproximações ao que dói. Uma egoísta, que se coloca acima dos outros, pensariam alguns se os deixasse. Prefere o outro lado, sem julgamentos nem palavras mansas, sem justificações nem generalizações, sem dor e compaixão. Fecha-se e já está. É um tempo curto. Seria longo, se não fosse a árvore de Natal, o velhinho das barbas brancas, os presentes, a comida em excesso, tudo o resto. Seria longo, se por segundos pudessem estar novamente todos à mesa. Seria longo se por segundos pudessem abraçar-se, uma vez que fosse.

Nada dura para sempre! O Natal e o hábito recente de se fechar por dentro, não é exceção. Com a voz do silêncio pede a Deus :  Não permitas que me ofenda Contigo ao olhar os lugares vazios na mesa da consoada.

N. B.

** imagem pinterest

 

 

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