Habitualmente não sou Maria, ninguém me conhece como tal, exceto na Segurança Social, no guiché do consultório médico ou na piada fácil de um amigo. Perguntam-me porque escrevo sobre os meus, sobre mim. Acho graça à questão e penso logo numa radiografia, o mapa do corpo, tão completo e tão desprovido do que somos. Acontece o mesmo na escrita, nesta forma de encenação.

Já te contei que nasci nos últimos quilómetros da década de 60? Já a Lua era nossa, já os soutiens tinham varrido as ruas de Nova York e a ressaca de Woodstock estava praticamente curada. Já te contei que nasci a tempo de poder afirmar que vivi no Portugal da ditadura e de me lembrar da Revolução dos Cravos, não a que se fez em Lisboa, mas a que aconteceu no Alentejo com a tentativa de ocupação das herdades?

Mas isto são linhas breves, pequenas notas para o alinhamento desta espécie de biografia, encolhida na centrifugação dos dias. Habitualmente não sou Maria, sou a que segura a porta às palavras, ao real e ao ficcional.

Posto isto, conto-te outra coisa: tal como o crente se debate com o silêncio de Deus, o mais difícil para quem escreve é o silêncio dos que leem.

NB

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