O meu coração batia no teu peito. Agora só bate no meu. Se pudesse convidava Deus para beber um café comigo. Perguntava-lhe por ti, queixava-me do que nos aconteceu, dizia-lhe que às vezes não sei o que fazer, que o meu coração não batia assim, que odeio as certezas certas e prefiro o que ainda se pode resolver. Mas Deus não bebe café. Pensei escrever-Lhe, incomodá-Lo, mas estou sem inspiração. Vou arrumar a cozinha, comer qualquer coisa. Duvido que Ele o faça.

Há histórias que têm de se reescrever muitas vezes, tantas quanto exige a tarefa de viver. Até porque, no fim de contas, é preciso acreditar para entender e não o contrário.

Há ligações eternas. Há amores para sempre. Há rostos que devolvem outros em qualquer espelho. Isto acontece mal nasce a possibilidade de existir.

É sobre isso que escrevo, sobre o que ficou de ti agora que não estás. As palavras possíveis, as palavras da ausência, imagens, sentimentos, memórias que se atropelam. É por isso que escrevo para entender a vida. Podia fazer outras coisas, tentar outras coisas, nisto posso fazer e desfazer e até a morte é um capricho reversível num delete. Crio reflexos de sobrevivência com as cores do arco- íris. Há um tempo com muitos tempos. Aqui estamos todos. Na escrita vivem os que eu quiser.

N.B.                                                                         * À memória dos meus pais

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