Como imagino a Páscoa? Fecho os olhos e entro naquilo a que alguns apelidam de meditação. Não ouço sinos, nem os passos na procissão do Senhor, nem os chocalhos à saída da missa de Aleluia. Não sinto o vazio do jejum, nem tão pouco o trincar das doces amêndoas. Sinto o cheiro maravilhoso dos bolos de festa, dos folares, dos bolos fintos que chegam em grandes tabuleiros, vindos da padaria do Sr. Maridalho. Um cheiro maravilhoso que perfuma toda a mercearia da minha mãe. Não anseio por comer uma fatia, satisfaço-me só de olhar o lustre dos bolos, os flocos de neve de açúcar que amparam as amêndoas e o ovo, no meio do folar. Uma tradição em tempo de Páscoa,  que hoje se comercializa todos os dias.

Imagino-me, como noutros tempos, a ansiar por estes dias festivos em que finalmente os  bolos fintos e os folares chegavam à loja. A minha mãe numa azáfama anotava as encomendas. A avó Felicidade oferecia-me um folar, cumprindo o ritual que cabe às madrinhas.

Quando saio de lá, deste exercício pleno de aromas, sei que o cérebro é feito de partes. Sirvo-me de algumas para regressar e  de outras para me lembrar que não há impossíveis. A Páscoa é um tempo do possível e do impossível. Sei porque digo isto.

N.B.

 

Cumprindo a tradição levo os bolos fintos e os folares para oferecer à família, aos amigos e aos afilhados.

**Cumprindo a tradição levo os bolos fintos e os folares para oferecer à família, aos amigos e aos afilhados.

1 Comment

  1. Embora só viva no sítio onde cresceu há cerca de 14 anos, já não consigo imaginar a Páscoa sem o bolo finto.
    Adoro o teu estilo de escrita e as tuas memórias. Elas dão substância à minha vida no país onde não nasci nem cresci.
    Tem razão no que escreveu no “Venho de lá” que lhe comprei. Encontramo-nos no seu livro e nos seus escritos.

    Obrigada.

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