Ouvi alguém dizer sabiamente:” Evitando gente, evita-se todo o tipo de surpresas.” Não deixa de ser verdade, no entanto como bastar-se a si próprio, como viver longe dos outros, fora da sociedade? O maior espaço de desilusão está na nossa cabeça, onde a ilusão ocupa uma área ainda maior. É, também, na cabeça que se filtram falhas e defeitos próprios e alheios.
Escrevo isto, agora, que começam a fluir muitas das coisas, das emoções, dos atos falhados que, inevitavelmente, vivem os que acompanham de perto vidas em fim de linha. Os últimos meses do ano que passou e o primeiro mês deste ano civil encheram-me o coração de incapacidades e a cabeça de decisões sem possibilidade de concretizar. O meu pai morria-nos e discordávamos de alguns procedimentos. Procurámos respostas, quisemos reverter decisões médicas, assumir e assinar por isso. Nenhum de nós, o pai, eu, o meu irmão, éramos os mesmos por esses dias. Cada qual montou a sua tenda de desalento, de solidão, tal era a ânsia de entender tudo, sem saber a fundo de nada. O meu pai morreu-nos numa madrugada que antecedeu um Domingo surreal num hospital desgovernado, onde ele sempre pediu para não ficar.
Passaram pouco mais de dois meses. Não sei o que fazem os outros, mas dou por mim a evitar gente, a aguardar pela hora do telefonema que já não faço. Sento-me a escrever e não escrevo, não me apetece ler romances. Leio livros de crónicas, reflexões de Tolentino Mendonça, poesia. Vou às compras, compro reflexos de felicidade, um vestido, um chocolate de leite e avelãs. Volto para dentro.
Há uma desigualdade na perda, seja ela de um ente querido, de um animal de estimação, de um bem ou um objeto. É que a perda acrescenta-nos, mas até termos absoluta noção disso, do quanto nos acrescenta, só a solidão serve como repositório de memórias.
N.B.
