Construí uma relação extraordinária com o tempo, que me permite a cada momento estar onde quero. Construí-a através da escrita. Avanços e recuos em simultâneo, basta que escreva.
Deixei o Alentejo para ir morar na rua, Dr. João Soares, no Campo Grande. Uma das ruas mais seguras e vigiadas do país, não fosse meu vizinho, o então Presidente da República, Dr. Mário Soares. O meu pai, no seu protecionismo exacerbado, não descansou enquanto não me pôs a dois passos da faculdade de Letras. Esta dinâmica de proximidade e segurança tinha um grande senão, os pássaros com gente dentro, que faziam estremecer o quarto e me impediam de dormir, aumentando as saudades de casa.
Morar, no corredor de aproximação à pista do aeroporto de Lisboa, foi um teste à minha capacidade de adaptação. Bastava-me pôr a cabeça fora da janela para ver um pássaro de ferro, barriga gorda, asas quase a tocar os telhados com os pneus do trem de aterragem. Imaginava-me a agarrá-lo, se tivesse coragem de subir ao telhado do prédio. A probabilidade de ver um avião sobrevoar a rua do Colégio Moderno, era infinitamente superior à de ver o Presidente, Mário Soares, que viajava imenso, ora para fora do país ora na nova e conhecida, Presidência Aberta.
Foi um ano inaugural de experiências, na capital. Lembro-me, do concerto dos The Cure, que acompanhei do lado de fora do estádio José de Alvalade. E percebi que o estilo não passa de um adereço. A música sente-se, não se veste.
Há pouco tempo, voltei à rua Dr. João Soares. Continua lá o Colégio Moderno e o apartamento que foi a residência do Dr. Mário Soares e Dra. Maria Barroso. Mas está diferente. Debaixo da janela, onde era o meu antigo quarto há, agora, um restaurante da moda. Exibe um estilo americano, de uptown ou será downtown?! A especialidade é cachorro no pão. Quanto aos pássaros de ferro, continuam a sobrevoar os telhados.
A esta distância, aquele ano não foi mais que um dia de descanso na minha vida.
N.B.
*imagem Depositphotos