Nos intervalos da vida sou feliz, aceito o inevitável, reciclo o que não correu bem, encontro os lugares certos para guardar a dor, a tristeza, as pessoas que me desiludiram, o que não soube entender, o que não esqueço. E há um altar para  os meus mortos, onde rezo, falo e me ouço.

Nos intervalos da vida deixo-me de merdas e renovo sonhos, projetos, intenções. Olho o outro lado da medalha, onde o meu nome não consta. Aguardo por outro campeonato. Sem meias palavras, reconheço a minha responsabilidade na relação sensível, agradável, ou não com o que me rodeia. Não transbordo simpatia, não sustenho sorrisos, não sei fazer salamaleques. Levo gente no meu coração que desconhece que lá está. Outros vivem no trânsito das minhas prioridades e sem me esquecer deixo-os para o dia seguinte e para o outro. São os que me amam e me perdoam, que valorizam intenções e mesmo ausentes são o que mais importa.

Nos intervalos da vida sonho com lugares onde não fui, caminhadas silenciosas de um andar sem perguntar, idealizo o amor só pelo que traz de bem. É preciso músculo para aguentar o ritmo dos dias iguais, para simplificar e desembrulhar os presentes com a delicadeza e o agradecimento de quem não pediu isto.

Que espaço de tempo haverá entre os intervalos felizes da vida?

Tirei notas, tentei precisar e vi-me a braços com uma matéria líquida, como a água do céu que nem sempre caí quando a antevemos, que quando caí é impossível quantificar (sem a ajuda dos senhores da meteorologia), encharca a terra sem que possamos determinar quando secará.

A energia gerada pelos átomos da felicidade  não poderia prolongar-se indefinidamente, dava cabo de nós. Não produziríamos igual, não ambicionaríamos igual, nem nos comoveríamos da mesma maneira. Seriamos outros, talvez um pouco mais tolos.

Há algo  que não devemos deixar de fazer por entre os intervalos disto tudo. Separar o lixo e deixá-lo no ecoponto.

NB

 

 

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