A menina Amélita atende o telemóvel por volta das nove da noite. Somos sempre três em linha, a menina Amélita, a Tina ou o Cajó e eu. É o pecado da inconfidência, de quem em casa própria, ouve as conversas da vizinha, senhora idoso, de oitenta e tal, espírito alegre, boa vizinhança. Desde que os filhos lhe ofereceram o telemóvel, a menina Amélita dobra o tom de voz, não vá haver o perigo de não se fazer ouvir. De modos que, por volta das nove da noite há conversas, em bom tom, do outro lado da parede. O telemóvel  toca e percebe-se uma fome de ouvir, de falar, de abraçar o Cajó e a Tina. Bons filhos, não se cansa de o dizer.

“Oh Cajó, filho, também está assim tanto calor no Porto? Oh Cajó, não te esqueças do aniversário do Toninho, que leva a mal. (…)

Oh Cajó, não te rales filho, que a tua irmã vem cá p´rá semana e compra-me o que falta. E a dona Augusta se preciso for, também o faz.

Pronto, Cajó, o que eu quero é que tenham saúde. Goza, lá, o São João. (…) Sim filho, eu vejo na televisão. Em que canal dá?

Tem tino Cajó que o São João é maroto. E ri-se, do que só ela sabe. Beijinhos filho. Beijinhos.”

Volta o som alto da televisão. A menina Amélita por ali fica mais o gato, num dormiscar solto que antecede o sono. Félix, o bichano, é como uma pessoa, contou-me ela, um destes dias. Dá conta de tudo, dizia-me com ar maroto. Ora vê lá, que me parece que ouve as conversas que tens ao telefone. Fiquei incrédula! Como assim, menina Amélita? Porque diz isso?

Olha, ficas a saber, que à volta das dez da noite, aponta as orelhas em flecha e assim fica, o magano. Será quando telefonas ao teu pai? Parece-me ouvir qualquer coisa. Que eu cá não ouço nada, estou quase mouca. Agora, o meu Félix, esse é como uma pessoa a ouvir a conversa dos outros.

Guardo o recado e entro em casa convicta de que o peso do corpo e das pernas, da menina Amélita, não condizem com a sua ligeireza de pensamento.

N.B.

 

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