Confiamos demasiado nas palavras julgando que o dizer é tudo. Confiamos e perdemos a oportunidade de nos fazer entender.
Um olhar demorado, um silêncio resgatado à fala, um abraço despudorado, a consciência da reciprocidade. Os olhos da pele, como lhe chama Tolentino Mendonça, ou os ouvidos dos afetos são terapêuticas sem contraindicação, quando as palavras sobram, quanto se tornam vãs. Terapêuticas ideais para aqueles que sofrem de “certezinhas absolutas”, os que racionam afetos receando que outros tomem conta das falas, desse território adorado.
Construímos um mundo tendencialmente especializado no bem dizer. É preciso desconstruir. A humanidade é algo que depende em boa medida do que fazemos uns com os outros.
A linguagem não é uma função natural e biológica do homem, mas uma criação cultural que herdámos e aprendemos de outros homens. É preciso arriscar a pele diante das muralhas de Tróia. Um lugar novo, para onde temos de ir mais vezes, despidos de dizer. Autênticos e tropeçar no céu como se fosse música e flutuar no ar como se fosse sábado. Autênticos.
Natália Batista
