Se tivesses de guardar um segredo fora do corpo, da cabeça, da mala da tua confiança, onde o guardarias?

Não me coíbo de refletir e responder à questão. Sou suficientemente emocional para saber que o guardaria perto de mim. Talvez num bolso se coubesse, se tivesse bolso. Talvez o transformasse em estado gasoso para o poder inspirar e expirar sem descanso, de forma natural, inconsciente. Bem sei que a auto-observação caiu em desuso. Tornámo-nos especialistas em reparar nos outros, enquanto deixamos a nossa própria casa às escuras. Talvez por isso tenha aumentado o número de segredos por m2. Para nivelar arquiteturas físicas e emocionais é preciso misturar e esconder muita coisa na argamassa dos dias.

Insisto, onde guardarias um segredo?

Naturalmente não equaciono a partilha pelo simples facto de que inevitavelmente deixaria de ser segredo para ser outra coisa. É preciso lembrar que todos os segredos se compõem nas suas múltiplas formas e substâncias por um detonador. Há quem se distraia ignorando o botão,  há quem se concentre nele com lealdade e rigor. São tantas as variáveis capazes de provocar a detonação do pequeno apêndice que carregamos.

A prudência ganha ranço.

Como? – perguntar-se-ão.

É segredo. Mas sempre vou dizendo que é como esquecer em vez de perdoar. Não se nota, mas está sempre lá.

N.B.

 

* Flora Borsi, Subjective Freedom I

2 Comments

  1. Fico deslumbrada com os jogos de palavras que constróis…ler-te torna-se viciante..
    Beijinhos

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